Obsessão – III
Acordei em um quarto mal iluminado que parecia bastante familiar, porém ao mesmo tempo, tão estranho de início me causou confusão. Olhava em volta e percebia que a janela se encontrava exatamente onde deveria estar assim como a porta, interruptor e tomadas, mas aqueles móveis não eram dos meus pais. Aquela cama king size definitivamente não era deles assim como aquela televisão gigante presa à parede e aquelas roupas jogadas no canto do quarto também não pertencia aos meus pais. Me levantei sentindo um pouco de dor de cabeça lancinante e que me causou um enjoo horrível que deixou minhas pernas bambas. Minha boca estava seca como seu eu tivesse caminhado horas num deserto escaldante. Abri a porta do quarto e deparei com o corredor sem as fotos de família que meus pais haviam pendurado nas paredes como decoração. Segui o caminho conhecido até o banheiro e ali as diferenças continuavam. Neste banheiro havia uma banheira grande cercada de um box de vidro onde na minha casa existia um chuveiro simples com uma prateleira cheia de produtos de beleza de minha irmã e mãe. Me olhei no espelho e me surpreendi com o quão horrível eu estava. Havia profundas olheiras arroxeadas rodeando meus olhos que estavam vermelhos como se eu tivesse fumado maconha na noite anterior. Meu cabelo estava desgrenhado e parecia ligeiramente ressecado. Abri a torneira e com a mão em concha lavei meu rosto cansado. Foi então que percebi que aquela camisa de algodão branca e bermuda de pijama cinza eram completamente estranhas. Vasculhei em minha mente alguma pista de onde aquelas roupas poderiam ter vindo, mas não vinha nada.
Ao sair do banheiro me deparei com ele no corredor saindo de um segundo quarto que ficava exatamente onde o meu quarto deveria estar. Por um momento me assustei, mas a visão de Matheus sem camisa usando bermuda de moletom preta me fez lembrar de estar no carro com ele e de ter passado a mão em seu peito nu. Corei imediatamente e senti meu corpo tremer de nervosismo.
— Bom dia flor do dia — Ele sorriu de forma casual — Está tudo bem?
— Acho que sim — Perguntei com a voz rouca — Estou na sua casa?
Matheus se aproximou de mim e me olhou nos olhos como se me examinasse.
— Amnésia alcoólica — constatou — Soro glicosado ajudaria na ressaca. Enfim, te achei na Barra quase chegando no Recreio ontem à noite no meio da chuva. Pensei que tivesse sido assaltado, mas você estava com o celular e o cordão que te dei então percebi que você tinha tomado um porre.
Senti meu rosto queimar ainda mais quando ele falou do cordão.
— Eu não sei direito o que aconteceu — falei lentamente — Eu lembro de ter ido à festa do meu amigo. Bebi muito e depois subi para o quarto com a Roberta... — de repente meu surto da noite anterior voltou a minha mente. Me lembrei de tentar transar com ela e de tê-la abandonado — Eu deixei Roberta no quarto.
Ele ficou em silêncio por um momento parecendo entender toda a história sem que eu a tivesse verbalizado e entendeu que naquele momento não era a melhor hora de falar sobre aquilo. Coloquei a mão em meu peito procurando pelo pingente de A, mas não o encontrei. Devo ter feito uma cara de susto, pois ele disse:
— Eu guardei para você — Matheus entrou no quarto novamente e saiu com minha corrente na mão — Posso? — Assenti e me virei de costas para ele. Matheus veio por trás de mim tão perto que pude sentir o calor de seu corpo emanando para o meu. Ele colocou o colar em meu pescoço e o pingente de A pousou gentilmente sobre meu peito. Me virei para ele que sorrindo deslizou a mão pela corrente e repousou em meu pingente — Ficou lindo em você — Corei novamente — A de Arthur.
— É lindo — Disse — Sei que foi caro e que o certo seria te devolver, mas não consigo. Eu adorei o colar.
— O valor não importa — Murmurou — Você fica lindo com ele.
Olhei eu seus olhos verdes e por um momento era como se eu pudesse ver sua alma que brilhava em diversas cores dançando lindamente, porém parecia ter algo misterioso ali dentro bem no fundo. Talvez algum sofrimento que carregava de seu passado. Me questionei como as pessoas do prédio podiam falar tão mal dele sem ao menos conhecê-lo? Matheus era um homem gentil de voz doce e um olhar tão brilhante que poderia iluminar a cidade inteira nas noites mais escuras. Senti meu corpo sendo atraindo para o dele como se eu fosse um meteoro que era puxado pelo campo gravitacional de um planeta. Me aproximava cada vez mais daquele homem lindo de braço tatuado, peito forte e cabelo cacheado. Queria me entregar completamente e sentia que ele também queria. Naquele momento eu teria cedido ao meu desejo, porém fomos interrompidos.
Ouvimos a porta da sala se abrir e em menos de cinco segundos ela estava no corredor nos olhando com a postura enrijecida pelo susto.
— Bom dia — a senhora disse com cortesia.
— Bom dia mãe — Matheus a respondeu dando um passo para trás o que não passou despercebido por ela que acompanhou seu movimento com o olhar — O que faz aqui tão cedo?
— Cedo? — A senhora de cabelos lisos na altura no ombro pegou o Iphone na bolsa preta e virou para ele — São quase onze horas! Eu fiquei de pegar a Agatha na amiga dela e ir fazer o cabelo. Hoje é aniversário da Vitória. Você vai, não é?
— Claro que eu vou no aniversário da minha afilhada! — Matheus pareceu ofendido por um momento — Ela não tem nada a ver com meu problema com Ulisses.
— Ótimo. Seu pai disse que poderia levar seu amigo se quisesse — Ela olhou-me de cima a baixo — Você tem quantos anos menino?
— Dezessete — respondi corando.
Ela arregalou os olhos de surpresa e encarou o filho com um ar julgador.
— Dezessete? — Ela parecia atônita — E os pais dele sabem disso?
— Sabem do que? — Indaguei um pouco confuso.
— Não é ele mãe — Matheus respondeu — Ele mora no apartamento de cima e como eu disse a vocês, o meu “amigo” era colega meu de faculdade e não nos falamos a nove meses — Embora ele não tenha feito as aspas com as mãos era perceptível sua existência na frase pela ênfase que ele deu a palavra.
Ela deu de ombros e olhou novamente para mim com desconfiança e preocupação. Estendeu-me a mão e eu a apertei.
— Prazer, Tereza — apresentou-se — Desculpa lhe deixar sem jeito, mas eu não sabia que meu filho tinha visita.
— Tudo bem — Não estava nada bem — Me chamo Arthur.
— Enfim, eu me lembrei que tenho que resolver algumas pendências da festa antes de buscar Agatha — ela sorria tentando ser simpática, mas estava claro que ela estava tão sem graça quanto eu.
— Não precisa ir mãe — Assim como eu, Matheus percebeu que ela estava dando uma desculpa para ir embora — Pode ficar.
— Desculpa meu filho, mas eu realmente tenho que ir. Foi um prazer te conhecer menino — Ela deu um beijo no rosto de Matheus, acenou para mim e foi embora.
Houve um momento de estranho silencio naquele corredor em que ninguém sabia muito bem como agir e nem o que falar. Todo aquele clima de poucos minutos atrás de transformou em algo tão desagradável que ambos estávamos corados de vergonha, porém havia algo mais na expressão constrangida de Matheus que eu não conseguia compreender. Comecei a brincar com meu pingente para diminuir o nervosismo.
— Você deve ter algumas perguntas, né? — Matheus perguntou sem jeito.
— Muitas, mas preciso voltar para casa antes dos meus pais voltarem da igreja. Preciso das minhas roupas.
— Estão na secadora. Você estava todo sujo e molhado ontem. Eu lavei suas roupas enquanto você tomava banho e te emprestei essa. Você lembra? Estava muito bêbado ontem.
— Só me lembro de estar bebendo ontem — menti.
— Imaginei — ele deu um sorriso que fez meu corpo inteiro amolecer — Então acho que não se lembra que prometeu ligar hoje para uma tal de Lívia, né?
Eu me lembrava disso, mas preferi manter a mentira, pois não queria que ele soubesse que eu lembrava de ter passado a mão em seu peito ontem à noite. Respondi q não com a cabeça e ele sorriu.
Foi até a área de serviço, pegou minha roupa e a dobrou cuidadosamente antes de me entregar. Agradeci e fui para o banheiro e a vesti rapidamente pensando no que quase havia acontecido alguns momentos antes de sua mãe entrar. Eu iria beijar aquele homem! Iria beijar aquele homem lindo e que ninguém no prédio gostava. Iria beijar aquele homem que me esperava na sala sem camisa e de bermuda. Iria beijar aquele homem cujo corpo me atraia tanto que ficava sem ar. A lembrança de tocar aquele peito rígido e liso me deixava louco. Eu queria ter beijado aquele corpo quente, tirar sua roupa e deixar ele fazer de mim o que ele quisesse. Eu queria ser submisso a ele e lhe dar prazer.
Lavei o rosto tentando afugentar esses pensamentos, mas era impossível! Eu era assim e ontem à noite eu percebi que não podia mudar, só me restava aceitar e enfrentar o que estava por vir.
Saí do banheiro e Matheus me entregou meu celular que já estava descarregado àquela altura. Eu o guardei no bolso da calça jeans e olhei para aqueles olhos verdes brilhantes e ele deu um sorriso travesso.
— Você já deve ter percebido a essa altura que eu sabia seu nome quando perguntei ontem — ele disse com aquela voz doce.
— Percebi — falei pegando no pingente de ouro — Imaginei que deve ter ouvido já que meu apartamento é aqui em cima.
— Sim — respondeu corando — Sempre ouço sua mãe te chamando — Ele se aproximou um pouco mais de mim. Senti seu corpo me puxando para si e eu tentava resistir ao máximo, mas aqueles olhos. Aqueles malditos olhos verdes eram minha perdição — Você e tão lindo — Ele me tocou meu braço suavemente e me conquistou por completo, sua mão deslizou com gentileza e carinho até minha mão. Matheus se aproximou tanto que eu pude sentir nossas respirações se misturando. Sentia o calor daquele homem irradiando para meu corpo e o cheiro do seu hálito me dominando por completo.
— O que você está fazendo? — Indaguei com a voz mole de alguém que estava completamente entregue.
— Não sei — murmurou com aquela voz doce — Só ouvindo meu coração.
— E o que ele diz? — Eu fitava aqueles olhos brilhantes.
— Para fazer isso — Matheus envolveu minha cintura com seu braço direito e me puxou para si e me deu um beijo.
Foi um beijo intenso que eu nem quis resistir e mesmo que quisesse seria impossível. Meus dedos se emaranharam naqueles cabelos cacheados e macios enquanto sua boca voraz devorava a minha e suas mãos percorriam minhas costas e apertavam minha bunda. Eu gemia baixinho colando meu corpo ao dele. Sentia o fogo consumir nossos corpos de dentro para fora me fazendo arfar. Sentia meu membro rígido contra o seu que pulsava de desejo. Matheus começou a puxar minha camisa para cima e por mais que eu quisesse que ele tirasse minha roupa e fosse meu homem naquela manhã eu tive que interrompê-lo.
— Eu tenho que ir para casa — disse quase sem ar entre um beijo e outro.
— Fica mais um pouco — Respondeu em um sussurro doce.
Suas mãos exploravam meu corpo me causando arrepios inexplicáveis. Seus lábios vorazes desceram até meu pescoço me fazendo gemer baixinho. Minha mão percorreu seu peito nu e ao contrário da noite anterior ele não me impediu de ir além do seu umbigo. Sentir seu pau quente e rígido por cima da bermuda e vi que seu membro era bem mais grosso que o de Bruno e maior também. Eu queria tirá-lo da bermuda e colocar aquela maravilha na boca, mas eu não podia. Pelo menos não naquele momento.
— Eu preciso ir — Com extrema dificuldade consegui me afastar de seu corpo que ainda exercia uma atração magnética em mim.
Pude ver em seus olhos que ele não queria me deixar ir, mas parecia entender que eu precisava. Me levou até a porta e a abriu.
— A gente se vê por aí — Matheus parecia estar sem jeito.
— Sim — respondi com um sorriso.
Ele sorriu e eu me afastei indo para a escada pensando que aquele tinha sido o melhor beijo que eu tinha ganhado em toda a minha vidaEspero que tenham gostado de mais esse capítulo.
Até o próximo.