Miriam não me olha.
Nas últimas semanas, tornou-se especialista em me evitar. Nos cultos, posiciona-se ao lado de Elias como se ele fosse um escudo, como se sua presença pudesse protegê-la do que já aconteceu — ou do que ainda pode acontecer.
Mas eu sei. Sei que, mesmo sem olhar, ela sente quando estou por perto. Sei que cada palavra que Elias profere no púlpito ressoa diferente agora. Que seu corpo, outrora intocado pelo desejo, ainda estremece com o eco da última vez que toquei nela.
Ela pensa que pode fingir. Que pode enterrar o que aconteceu naquela sala silenciosa da igreja, onde sua voz quebrou em um gemido incontrolável enquanto meus dedos a faziam perder o fôlego. Mas eu a conheço melhor agora. Sei que, por trás das vestes discretas, das
mãos cruzadas no colo e do olhar fixo no sermão, há uma mulher que já sentiu o gosto do pecado e não sabe mais como voltar atrás.
E eu?
Eu estou apenas começando.
No culto daquela noite, posiciono-me algumas fileiras atrás dela. O salão está cheio, mas consigo vê-la claramente entre as cabeças curvadas em oração. O coque baixo segura seus cachos, mas alguns fios rebeldes escapam, roçando sua nuca. Imagino a sensação deles entre meus dedos. Imagino como sua pele se arrepia sob meu toque.
Ela não se vira, mas sei que percebe quando chego. Sei pelo modo como seu corpo se enrijece, como seus dedos se apertam um pouco mais contra o tecido da saia.
Elias sobe ao púlpito, ajusta o microfone e pigarreia antes de começar sua pregação.
— A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata, com as próprias mãos, a destrói — ele recita, a voz firme, autoritária.
Meu olhar se volta para Miriam.
Ela não se move. Mas sua respiração vacila.
Sorrio. Elias pode pregar sobre submissão o quanto quiser. Pode inflar o peito e se autoproclamar líder de seu lar, senhor de sua esposa. Mas já é tarde demais. O corpo de Miriam já provou que existe um outro tipo de devoção.
E eu vou lembrá-la disso.
O culto se arrasta. Elias fala sobre sacrifício e obediência, sobre como as tentações corrompem a carne e desviam os fiéis do caminho certo. Minhas mãos descansam nos joelhos, os dedos batucando ritmicamente enquanto escuto.
— A mulher foi feita para servir ao homem, para ser sua auxiliadora fiel — Elias prossegue, e alguns murmúrios de aprovação ecoam pelo salão. — Não há glória maior do que a mulher que se entrega completamente ao propósito para o qual foi criada.
Minhas sobrancelhas arqueiam.
Ah, essa eu não deixo passar.
O culto termina e os fiéis se dispersam, alguns ainda em oração, outros se cumprimentando. Miriam já se afastou, evitando a possibilidade de um encontro.
Em outro dia, antes do culto começar, Elias fala com Miriam como se ela fosse uma criança desobediente.
O tom de sua voz é seco, cortante. A postura rígida, imponente. As ordens saem rápidas e ríspidas, sem sequer lhe conceder um olhar.
— Anda logo, mulher, não tenho o dia todo! — ele esbraveja, os olhos percorrendo o salão da igreja. — Pegue os hinos, organize as cadeiras, providencie a água do púlpito. Quero tudo no lugar antes que o restante dos fiéis comecem a chegar.
Miriam não responde. Apenas abaixa a cabeça e faz o que ele manda.
Mas eu vejo.
Vejo a forma como suas mãos tremem levemente ao segurar os papéis do hinário. Como sua respiração se altera por um instante antes de voltar ao ritmo contido de sempre.
Vejo o rosto de algumas mulheres da congregação. Algumas fingem que não estão ouvindo. Outras trocam olhares silenciosos.
Mas ninguém diz nada.
Elias continua.
— Você acha que essa igreja se organiza sozinha? — sua voz se eleva. — O tempo está passando, e você ainda está aí, parada como se não soubesse seu papel!
Miriam aperta os lábios, abaixando-se para recolher alguns papéis. A saia longa desliza sobre o piso enquanto ela se move, os ombros tensionados, como se esperasse o golpe invisível de cada palavra.
Não me contenho.
— Pastor — minha voz atravessa o silêncio.
Elias para. Miriam também.
Os olhares se voltam para mim. Cruzo os braços, encarando-o com um ar de tédio cuidadosamente calculado.
— Não acha que está pegando pesado?
A tensão no ar se materializa.
Elias franze o cenho.
— Como é?
Dou de ombros.
— Só estou perguntando se não acha que está pegando pesado. Miriam parece saber exatamente o que precisa fazer. Não precisa gritar com ela.
Ele aperta os olhos.
— Isso não é da sua conta, rapaz.
— Não? — Ergo as sobrancelhas, fingindo surpresa. — Estranho… porque parece que se tornou da minha conta quando você decidiu humilhar sua esposa em público.
Um burburinho ecoa entre os fiéis que já começam a se reunir no salão. Miriam arregala os olhos para mim, um misto de choque e alarme.
Elias dá um passo à frente.
— Cuidado com suas palavras, garoto. Você não tem lugar para me ensinar como lidar com minha esposa.
— Talvez eu não tenha. Mas e se for ela que quiser aprender?
A frase sai carregada de um duplo sentido que ele não percebe. Mas Miriam percebe.
Seus lábios se entreabrem, os dedos apertam o papel em suas mãos.
Elias me encara por longos segundos. Sei que ele quer responder, quer me colocar em meu lugar. Mas há olhos demais sobre ele agora.
Ele bufa, irritado, e volta-se para Miriam.
— Ande logo — resmunga, mais baixo desta vez.
Depois, segue para a porta lateral da igreja, sem mais me dirigir a palavra.
O silêncio que fica para trás é espesso. Os fiéis murmuram entre si, mas logo se dispersam para seus afazeres.
Miriam ainda está ali.
Quando nossos olhares se encontram, algo muda nela.
Não é um olhar de medo. Nem de raiva.
É outra coisa.
Algo que mistura gratidão e incredulidade… e desejo.
Ela abaixa os olhos logo em seguida e continua a organizar os hinos, os gestos hesitantes. Mas agora, seus dedos tremem por outro motivo.
E eu sorrio.
Porque sei que plantei mais uma semente.
E que, mais cedo ou mais tarde, ela vai florescer.
O culto começa, e Elias está em seu palco.
Do púlpito, sua voz ressoa forte, dominando cada canto do salão. Ele tem essa habilidade. Esse talento de fazer suas palavras parecerem inquestionáveis, como se fossem ditadas pelo próprio Deus.
Miriam está sentada na primeira fileira, ao lado de outras mulheres da congregação. A postura
reta, as mãos delicadamente pousadas sobre o colo.
Eu estou alguns bancos atrás, mas não tiro os olhos dela.
— Está escrito — Elias brada, percorrendo as páginas da Bíblia com um olhar afiado — que a mulher foi feita para ser ajudadora do homem. Ela deve servir ao seu marido, como a igreja serve a Cristo.
Murmúrios de aprovação ecoam pela igreja. Cabeças se balançam afirmativamente.
Sinto meu maxilar tensionar.
O teatro continua. Elias fala com a paixão de quem acredita piamente em suas próprias palavras. Mas há algo mais ali. Uma provocação velada, uma resposta ao que aconteceu antes do culto, quando ousei desafiá-lo.
— Uma mulher virtuosa sabe que seu papel não
é buscar desejos egoístas. Ela não se curva às tentações da carne. Ela se dedica à sua casa, ao seu marido, à sua igreja.
O peso daquelas palavras recai sobre Miriam como uma sombra.
Vejo a maneira como sua respiração muda, quase imperceptível. Como seus ombros enrijecem.
E então, ela me olha.
Por um segundo, só um segundo, seus olhos encontram os meus.
E algo dentro dela estremece.
Não sei dizer se é culpa. Medo. Raiva.
Ou se é o mesmo desejo proibido que a fez gemer contra minha boca naquela noite.
Minha perna se move involuntariamente, um
incômodo crescendo dentro de mim.
Ela abaixa os olhos depressa.
Mas já é tarde.
Eu vi.
E agora, ela sabe que eu vi.
Elias continua sua pregação, sua voz ecoando pelo salão, mas para mim tudo já se tornou ruído de fundo.
Miriam pode tentar esconder. Pode se esconder atrás da culpa, da moral, da servidão.
Mas naquele instante, com apenas um olhar, ela revelou tudo.
E eu não vou deixar isso passar.
A igreja começa a esvaziar aos poucos. O som dos fiéis conversando e se despedindo ecoa pelos corredores, misturado ao farfalhar dos vestidos das mulheres e ao ranger das tábuas do assoalho gasto.
Miriam está ajudando a organizar as cadeiras, cabeça baixa, mãos inquietas, tentando parecer ocupada. Mas eu vejo os pequenos sinais. O modo como seus dedos apertam o tecido do vestido. O ritmo levemente acelerado da respiração. O olhar que, vez ou outra, se desvia para os lados, como se procurasse algo—ou alguém.
Ela está tentando me evitar.
O que só me dá ainda mais vontade de encontrá-la.
Espero o momento certo. Elias está ocupado cumprimentando os irmãos na saída, distribuindo sorrisos ensaiados, a postura
imponente. A atenção dele está longe.
É a minha deixa.
Deslizo pelos corredores discretamente, meus passos leves contra o chão de madeira. Miriam desaparece por uma porta lateral, indo em direção a um dos depósitos onde são guardados materiais da igreja.
Perfeito.
Atravesso a porta logo atrás dela e fecho sem fazer barulho.
Ela está de costas para mim, empilhando algumas caixas. Quando percebe minha presença, o corpo inteiro enrijece.
— Miguel… — sua voz sai num sussurro aflito.
Mas não há saída.
Dou um passo à frente e encosto a mão em sua
cintura, sentindo o calor do corpo dela sob o tecido do vestido. Miriam prende a respiração.
— Tá fugindo de mim agora?
Ela se vira, hesitante, e seus olhos encontram os meus. Estão arregalados, a pele quente, os lábios levemente entreabertos.
— Não posso… não devemos…
A voz dela é um fio trêmulo. Mas o corpo? O corpo não mente.
Meus dedos deslizam pelo tecido grosso da saia, subindo devagar até sua cintura. O toque é firme, mas não agressivo. Apenas o suficiente para mantê-la ali, forçando-a a encarar a verdade que reluta em admitir.
— Serva do seu esposo, você? — murmuro contra sua pele, minha boca tão perto que sinto o cheiro suave de baunilha que sempre a envolve. — Você merece mais do que isso,
Miriam.
Ela treme. Os cílios longos piscam rapidamente, como se tentassem afastar a vertigem que sei que está sentindo.
— Eu não deveria querer isso…
— Mas quer.
A hesitação dela dura meio segundo.
Até que minha boca encontra a dela.
Dessa vez, ela não recua.
Não há mais fuga.
O beijo começa hesitante, mas logo se dissolve no desespero que ambos seguramos por tempo demais. Meus lábios capturam os dela com avidez, explorando, exigindo. As mãos de Miriam deslizam para meus ombros, num gesto incerto, como se ainda não acreditasse que está me
segurando.
Mas então, algo muda.
Os dedos dela apertam minha camisa. O corpo se rende. O beijo se aprofunda.
Minha língua invade sua boca, saboreando cada gemido abafado que ela deixa escapar. A maciez, o calor, o gosto doce que me enlouquece.
Minha mão desliza pela curva de suas costas, puxando-a para mais perto, até que não haja espaço entre nós. Até que eu possa sentir cada tremor, cada suspiro contido.
O depósito é pequeno, escuro, e cada som parece amplificado. A respiração acelerada dela. O leve estalar dos lábios se separando e se encontrando de novo. O roçar do tecido do vestido contra minha calça.
Miriam se entrega.
E dessa vez, não há culpa o suficiente para impedir.
O beijo se aprofunda num ritmo faminto, um embate de línguas e suspiros entrecortados. O ar no pequeno depósito fica pesado, carregado de desejo contido por tempo demais. Meus dedos deslizam pelo corpo de Miriam, sentindo cada curva sob o tecido do vestido, cada tremor sutil que denuncia sua entrega.
Ela está quente.
E eu quero mais.
Seguro sua nuca, prendendo-a contra mim. Meus lábios deixam os dela apenas o suficiente para que minha língua passe lenta, provocativa, pelo seu lábio inferior. Sinto o gosto dela, quente e doce, e respiro fundo, absorvendo seu perfume.
— Eu estava com saudade dessa boca… —
murmuro contra sua pele, a voz carregada de desejo.
Miriam solta um pequeno suspiro, os olhos escuros brilhando na penumbra do depósito. As mãos dela estão apertadas nos meus ombros, os dedos fincados no tecido da minha camisa como se quisesse se segurar em algo.
Então, sem aviso, ela inclina o rosto e morde de leve meu lábio inferior.
O gesto me pega de surpresa.
Mas o que realmente me faz perder o ar é o que vem depois.
— É tão bom… — ela confessa, num sussurro rouco.
O jeito que ela diz isso me destrói.
Porque não é apenas um elogio ao beijo. É uma confissão.
Ela gosta.
Gosta do jeito que a toco, do jeito que a desejo, do jeito que faço seu corpo queimar.
Meus dedos apertam sua cintura com mais firmeza, puxando-a para mim, aprofundando ainda mais o beijo. Minha língua explora sua boca sem pressa, saboreando cada pequeno gemido que escapa de seus lábios.
O mundo ao redor desaparece.
Não há igreja. Não há Elias. Não há pecado.
Só há nós dois.
Mas então, passos.
O barulho de solas pesadas ecoando pelo corredor do lado de fora nos arranca do transe.
Miriam congela nos meus braços.
Por um segundo, ficamos ali, respirando rápido, os corpos colados, os lábios ainda úmidos do beijo.
Então, com um sobressalto, ela me empurra levemente e dá um passo para trás.
Seus olhos estão arregalados, a expressão dividida entre pânico e desejo. As mãos tremem enquanto deslizam pelo vestido, alisando o tecido num gesto automático de quem tenta desesperadamente parecer composta.
— Eu… eu preciso ir — ela sussurra, quase sem voz.
Eu poderia segurá-la. Poderia puxá-la de volta para mim e dizer que ela não precisa fugir, que ninguém jamais a tocou como eu, que ninguém a fez sentir como eu faço.
Mas eu deixo.
Porque sei que ela vai voltar.
Ela já pertence a esse desejo tanto quanto eu.
E agora, ela sabe disso.
Miriam ajeita o coque baixo que se soltou durante o beijo e lança um último olhar para mim antes de desaparecer pela porta.
Eu sorrio, ainda sentindo seu gosto nos meus lábios.
Isso está longe de acabar.
Havia algo viciante em Miriam. No jeito que ela tentava evitar meu olhar durante os cultos, apenas para acabar me procurando quando achava que ninguém estava olhando. No modo como suas mãos tremiam de leve sempre que eu a tocava, como se seu próprio desejo fosse
um choque inesperado.
Nosso último encontro clandestino no depósito tinha sido um marco. Depois daquele beijo, algo nela mudou.
Ela começou a me querer.
E eu comecei a testar até onde poderia ir.
Os encontros furtivos se tornaram parte da nossa rotina. Pequenos momentos roubados entre uma obrigação e outra dentro da igreja. Ela sempre fingia que resistia, mas seu corpo nunca mentia.
Primeiro, foram apenas olhares.
Depois, toques discretos.
Agora, eu a tinha completamente cativa.
E essa noite não seria diferente.
A igreja estava quase vazia, o culto começaria em breve. Miriam estava sozinha, organizando os hinos sobre o púlpito, concentrada, tentando ignorar a presença dos fiéis que começavam a chegar.
E ignorando a minha também.
Mas eu não estava disposto a ser ignorado.
Me aproximei devagar, deixando que a ponta dos meus dedos deslizasse sutilmente pelo seu braço antes de entrelaçá-los nos dela.
Ela se enrijeceu na mesma hora, um pequeno arrepio percorrendo sua pele.
— Miguel… — murmurou, sem se virar.
Meu peito colado às suas costas, minha respiração quente contra sua nuca.
— Você se veste tão recatada, mas seu corpo pede para ser descoberto — provoquei, minha
boca perigosamente próxima de seu ouvido.
Ela fechou os olhos por um instante, os dedos tremendo sob os meus.
Eu sabia que deveria parar.
Mas não queria.
Meus lábios roçaram sua orelha, um toque quase inexistente, apenas para ver sua reação.
E a reação veio.
Ela arquejou baixinho, tão baixo que apenas eu pude ouvir.
Meus dedos apertaram sua mão com mais firmeza, sentindo a tensão deliciosa em seu corpo.
— Eu penso em você o tempo todo, sabia? — continuei, minha voz carregada de malícia. — Penso em cada detalhe seu…
Ela engoliu em seco, mas não se afastou.
Pelo contrário.
Seu corpo relaxou contra o meu, como se estivesse cansada de fingir resistência.
E então ouvimos.
Passos.
Pesados. Determinados. Se aproximando.
Miriam se afastou de mim num pulo, a expressão tomada pelo pânico.
Eu me afastei também, rápido o suficiente para parecer que nunca tinha estado perto.
E foi quando ele apareceu.
Elias.
Seu olhar frio varreu o ambiente, pousando primeiro em Miriam, depois em mim.
Nenhuma palavra foi dita.
Mas o clima mudou.
O ar ficou pesado, carregado de algo que não era apenas suspeita.
Elias parou diante de nós, seu olhar desconfiado passeando entre mim e Miriam. Ela abaixou a cabeça de imediato, assumindo aquela postura submissa que me irritava. Como se estivesse sempre pronta para levar uma bronca, sempre esperando ser diminuída.
— O que está fazendo aqui, rapaz? — Elias perguntou, cruzando os braços sobre o peito.
Sua voz era carregada daquela autoridade arrogante, como se o fato de ser pastor lhe desse domínio sobre tudo e todos ao seu redor.
Sorri de canto, ajeitando os papéis sobre a mesa com falsa despreocupação.
— Ajudando Miriam a organizar as coisas — respondi, deixando minha voz deliberadamente casual.
Elias estreitou os olhos.
— Não precisa. Isso é trabalho dela.
Minha mandíbula travou, mas mantive o sorriso no rosto.
— Engraçado, achei que a igreja fosse um lugar de comunidade. Onde todo mundo se ajuda.
Miriam me lançou um olhar aflito, como se implorasse para que eu não começasse uma discussão.
Mas eu já tinha começado.
Elias bufou.
— Deus deu funções claras para homens e mulheres, rapaz.
Ah, aí estava. A velha cartilha misógina travestida de palavra sagrada.
Cruzei os braços, encarando-o sem desviar.
— Entendi. Então, enquanto os homens pregam e mandam, as mulheres devem abaixar a cabeça e servir.
Elias me lançou um olhar afiado.
— Exatamente. Está na Bíblia.
— Está mesmo? — arqueei a sobrancelha. — Ou só é conveniente interpretar desse jeito?
Um silêncio pesado se instalou entre nós.
Miriam me olhava de um jeito estranho. Como se, pela primeira vez, visse um homem falando
aquilo em voz alta.
Elias forçou um sorriso seco.
— Você é jovem, ainda tem muito o que aprender.
— Verdade — concordei, ainda sorrindo. — Mas acho que já aprendi o suficiente pra saber que respeito não deveria ser uma via de mão única.
Seus olhos faiscaram.
Miriam estava imóvel ao meu lado, como se tivesse medo de respirar muito alto.
Elias estalou a língua.
— Se já terminou por aqui, vá se sentar. O culto já vai começar.
Não me mexi de imediato.
Olhei para Miriam.
Ela não me encarava, mas suas mãos apertavam os papéis com força.
E então, sem dizer mais nada, fui me afastando.
Mas antes de sair, passei por Elias e deixei minha última provocação no ar.
— Sabe, pastor, algumas mulheres não nasceram só pra servir. Algumas nasceram pra ser adoradas.
Então me afastei, deixando Elias e Miriam para trás.
Mas eu sabia que minhas palavras ficariam com ela.
O salão da igreja estava lotado. O som do coral preenchia o ambiente, e os fiéis balançavam levemente o corpo ao ritmo da música. O clima
era aquele de sempre: fervoroso para alguns, automático para outros.
Miriam estava sentada no banco da frente, ao lado de Elias, as mãos delicadamente pousadas sobre o colo, os ombros tensos. Desde a conversa na sala de organização dos hinos, ela não me olhava diretamente. Mas eu sabia que me sentia.
Elias subiu ao púlpito com sua imponência costumeira. Ele adorava aquele palco. O microfone nas mãos lhe dava um poder que ele usava sem qualquer hesitação.
— Irmãos — começou, seu tom solene. — Hoje falaremos sobre a tentação.
Minha mandíbula endureceu.
Miriam enrijeceu sutilmente.
Eu soube na hora: aquela pregação era para ela. Para nós.
— O pecado da carne é uma das maiores armadilhas do inimigo — ele prosseguiu, caminhando de um lado para o outro. — A fraqueza do desejo pode destruir lares, corromper almas. O diabo se infiltra nos pensamentos, veste-se de sedução, sussurra promessas vazias de prazer.
Algumas pessoas murmuraram améns. Outras balançaram a cabeça em aprovação.
Meus dedos apertaram os joelhos.
— Os impuros se deixam levar, permitindo que seus corpos tornem-se instrumentos da devassidão! — Elias bateu a mão no púlpito, teatral. — Mas a mulher virtuosa… Ah, essa sabe que sua maior glória está na obediência.
Miriam baixou a cabeça.
O queixo de Elias se ergueu, o olhar varrendo a congregação.
— A mulher honrada serve ao seu esposo, mantendo-se pura, rejeitando a carne. Pois quem cede à luxúria perde-se do caminho do Senhor!
Senti um gosto amargo na boca.
Ele falava como se fosse dono dela. Como se sua única função no mundo fosse se manter "pura" para ele.
Minha visão ficou turva de raiva.
Eu sabia o que ele estava fazendo. Ele não estava apenas pregando. Ele estava marcando território. Um aviso velado para Miriam.
"Não se esqueça do seu lugar."
"Não se esqueça de quem manda em você."
Filho da puta.
Me recostei no banco, os braços cruzados.
Miriam mantinha-se imóvel, mas eu via o ritmo de sua respiração se alterando.
Ela sentia.
Ela sabia.
E, de alguma forma, isso me excitava ainda mais.
Não porque eu gostava de vê-la naquela posição, mas porque eu queria tirá-la dali.
Queria libertá-la daquele controle.
Queria que ela soubesse que poderia sentir prazer sem culpa. Que podia ser mais do que uma serva.
E eu ia mostrar isso a ela.
No tempo certo.
O sermão terminou, mas o eco das palavras de Elias ainda pairava no ar. O fluxo de fiéis começava a se dispersar, alguns se reunindo para conversar, outros indo direto para casa. Miriam manteve-se ao lado de Elias por um tempo, a cabeça baixa, absorta em pensamentos.
Eu não tirei os olhos dela.
Aquela pregação não foi apenas um aviso. Foi um golpe calculado. Ele sabia. Ele sentia. E agora Miriam estava afundada ainda mais na culpa.
Mas eu também sabia que, por trás da culpa, havia algo mais forte. Algo que ela lutava para esconder, mas que crescia dentro dela cada vez que nos encontrávamos.
Saí discretamente do salão principal e fui até o corredor lateral da igreja. Um espaço mais reservado, onde poucas pessoas passavam. Esperei.
Eu sabia que ela viria.
E veio.
Miriam apareceu, caminhando devagar, as mãos unidas à frente do corpo, os lábios franzidos. Seus ombros estavam tensos, como se carregassem o peso do mundo.
Assim que me viu, parou.
— Miriam.
Ela não respondeu de imediato. Respirou fundo, fechando os olhos por um instante, e então se aproximou.
— Miguel… — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro.
— Ele fez aquele sermão por sua causa — afirmei.
Miriam se encolheu, desviando o olhar.
— Eu… Eu não sei do que está falando.
Ri pelo nariz.
— Claro que sabe.
Ela respirou fundo outra vez, os olhos inquietos.
— Isso é errado, Miguel.
Me aproximei um pouco mais.
— O que exatamente é errado?
Miriam mordeu o lábio, hesitante.
— Isso. Nós. Eu… eu não posso continuar assim. Estou pecando.
— Pecando? — arqueei uma sobrancelha. — Pecado pra quem, Miriam?
— Pra Deus.
— Ou pro seu marido?
Ela apertou os lábios.
Eu dei mais um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre nós.
— Você sentiu alguma coisa errada naquele momento? Quando estávamos juntos? Quando meus dedos estavam dentro de você?
Miriam arregalou os olhos e olhou ao redor, assustada.
Sorri de lado.
— Você gozou, Miriam. Se fosse tão errado assim, seu corpo teria recusado. Mas não recusou.
— Não fala assim… — Ela apertou as mãos, desviando o olhar.
— Assim como? Com a verdade?
Ela ficou em silêncio.
Eu levantei a mão devagar e deslizei os dedos pelo braço dela, sentindo a pele se arrepiar sob meu toque.
— Me diz, Miriam… — murmurei. — Você sentiu Deus te castigando naquela hora?
Ela engoliu em seco.
— Ou só sentiu prazer?
Miriam respirou fundo, os olhos ainda fechados, como se tentasse reunir forças para resistir. Meu toque permaneceu leve em seu braço, apenas um deslizar sutil dos dedos, mas ela sentia. Eu sabia que sentia. O silêncio entre nós pesava mais do que qualquer sermão de Elias.
Então, finalmente, ela abriu os olhos.
Havia um brilho ali—um misto de confusão, desejo e medo.
— Miguel… — a voz saiu falha, trêmula.
— O que foi? — perguntei, mantendo meu tom baixo, provocador.
Ela hesitou por um instante, como se quisesse dizer algo diferente. Como se estivesse à beira de ceder de novo. Mas, em vez disso, respirou fundo e murmurou:
— Se afasta de mim.
As palavras caíram entre nós como uma sentença.
Senti os dedos dela estremecerem sob os meus antes de se afastar completamente, dando um passo para trás. O espaço entre nós pareceu enorme de repente.
Ela baixou a cabeça, apertando as mãos contra o próprio corpo, como se tentasse se proteger de algo. De mim.
Ou de si mesma.
— Isso tem que parar — continuou, num fio de voz. — Eu sou uma mulher casada. Isso é errado. Eu… não posso mais.
Ela se virou para sair, os passos apressados, quase uma fuga.
Eu não tentei impedi-la.
Apenas a observei desaparecer pelo corredor, sabendo que, por mais que tentasse fugir, a verdade já estava marcada em sua pele.
E era só questão de tempo até que voltasse para mim.
Continua...
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