O dia passou como um véu de exaustão sobre elas. O sol subiu e desceu no céu, mas o quarto permaneceu intocado pela luz do mundo exterior, as cortinas pesadas bloqueando qualquer intrusão. Lívia e Mariana dormiram o dia inteiro, os corpos entrelaçados na cama, ainda carregando o peso e os vestígios da noite anterior. O cheiro de sexo e suor seco impregnava o ar, misturado ao leve aroma de cera queimada das velas que haviam se apagado sozinhas. Foi só no final da tarde de domingo, quando o crepúsculo tingiu o céu de tons alaranjados, que Lívia abriu os olhos, o corpo dolorido mas estranhamente leve.
Obediente como sempre, ela se desvencilhou dos braços de Mariana com cuidado para não acordá-la e deslizou para fora da cama. Seus pés tocaram o chão frio, e ela estremeceu, sentindo cada músculo protestar. O colar de couro ainda pendia em seu pescoço, as argolas nos mamilos tilintando suavemente enquanto caminhava até o banheiro. Lá, preparou a banheira com gestos quase rituais: despejou sais de banho com aroma de lavanda, adicionou espuma que logo formou montanhas brancas e ajustou a temperatura da água até que estivesse perfeita. Satisfeita, voltou ao quarto e se aproximou da cama.
"Mariana," chamou, a voz suave, quase um sussurro, enquanto tocava o ombro dela. "A banheira está pronta." Mariana abriu os olhos devagar, um sorriso preguiçoso se formando em seus lábios ao ver Lívia ali, submissa e atenciosa. Ela se espreguiçou, o robe de seda preta escorregando para revelar as marcas da noite — hematomas leves nas coxas, arranhões sutis nos seios —, antes de se levantar e seguir Lívia até o banheiro.
As duas entraram na banheira juntas, a água quente envolvendo seus corpos como um abraço. Mariana se recostou contra a borda, os cabelos soltos caindo sobre os ombros, enquanto Lívia se acomodava entre suas pernas, a espuma cobrindo os seios agora mais cheios graças aos hormônios. Por um momento, ficaram em silêncio, apenas aproveitando o calor e a proximidade, mas logo Mariana começou a falar, a voz firme carregada de planos.
"Já chega de vestígios do passado," disse ela, os dedos brincando com a espuma. "Amanhã vamos jogar fora todas as roupas masculinas que ainda estão no armário. Lucas acabou. Vamos ao cartório mudar seu nome e gênero oficialmente. Lívia é quem você é agora, e eu quero que o mundo saiba."
Lívia assentiu, os olhos fixos na água, sentindo o peso do colar e o vazio onde antes havia resistência. Mariana continuou, inclinando-se para pegar a chave pendurada em seu pescoço. "E esse cinto," disse, erguendo a chave diante de Lívia, "já cumpriu seu papel. Os hormônios fizeram o trabalho. Você não precisa mais dele." Ela se aproximou, destrancando o dispositivo de metal com um clique que ecoou no banheiro. O cinto caiu na água, e Lívia sentiu um alívio estranho misturado a uma leve vulnerabilidade.
Mariana riu baixo, deslizando a mão pelo micropênis agora livre. "Olha só isso," murmurou, tentando, sem sucesso, provocar uma ereção. Não havia nem um sinal de vida, apenas a pele flácida e inerte. "Perfeito. Lucas morreu mesmo." Ela largou a mão, satisfeita, e voltou a se recostar. "Amanhã, segunda-feira, vamos fazer compras. Você precisa de um guarda-roupa novo."
Lívia hesitou, a voz tímida interrompendo o fluxo de Mariana. "Mas... eu só tenho roupas vulgares agora."
Mariana virou o rosto para ela, os olhos brilhando com um misto de diversão e autoridade. "Sim, e assim será daqui pra frente. Eu também vou renovar o meu. Essas roupas comportadas que eu tenho? Não servem mais. A partir de agora, nós duas seremos putas vulgares. Você vai tomar sol de microbiquíni — seus peitinhos já cabem em um, mas futuramente vamos turbiná-los com silicone. Quero você bem chamativa."
Lívia corou, mas não protestou. As palavras de Mariana eram ordens, e ela sentia um calor estranho crescer dentro de si com a ideia de ser moldada ainda mais. Elas se entreolharam por um instante, e então Mariana puxou Lívia para mais perto, suas mãos deslizando pela pele escorregadia da espuma. Entre carícias leves, ajudaram-se a limpar os vestígios da noite anterior — a porra seca que ainda marcava suas coxas e seios, os traços de batom borrado no rosto de Lívia. Era um ato íntimo, quase carinhoso, mas carregado da dinâmica de poder que as definia.
Quando saíram da banheira, Mariana secou-se rapidamente e pegou uma microsaia preta no armário — tão curta que mal cobria a bunda, deixando os seios desnudos à mostra. "Vista essa," ordenou, jogando uma saia um pouco mais comprida, mas ainda reveladora, para Lívia. "Nada de calcinha. Quero você livre." Lívia obedeceu, o tecido leve roçando sua pele sensível enquanto Mariana pedia uma pizza pelo aplicativo.
Enquanto Lívia secava os cabelos de Mariana com o secador, o som da campainha ecoou pela mansão. Mariana se levantou, ainda seminua, e foi até o portão sem hesitar. Lívia correu para as câmeras de segurança, observando a esposa na tela. O motoboy, um jovem de pele morena e olhos arregalados, ficou paralisado ao vê-la daquele jeito — os seios expostos, a saia subindo a cada passo. "Pode passar a mão se quiser," disse Mariana, a voz provocadora, e o rapaz não perdeu tempo. Tirou o capacete, as mãos trêmulas tocaram os seios dela, e logo ele se inclinou, chupando-os com uma mistura de surpresa e desejo, bem ali, à beira da rua.
Mariana voltou com a pizza, um sorriso satisfeito no rosto, e encontrou Lívia já com a mesa arrumada — pratos, copos, guardanapos impecáveis. Jantaram em silêncio, os corpos ainda carregados pela ressaca da noite anterior, o sabor da pizza misturando-se ao gosto residual de tudo que haviam vivido. Depois, acomodaram-se no sofá para assistir a um filme, as pernas entrelaçadas, as saias subindo sem que nenhuma das duas se importasse. O cansaço pesava, mas havia uma energia latente entre elas, um prenúncio de que a consagração de Lívia — e agora, de Mariana também — estava apenas começando a se desdobrar em algo ainda mais selvagem e irreversível.