O Internato – XXIX
Capitulo vinte e nove
Desabafo
Daniel
– Quer dizer que Marcelo Freitas foi convencido a ir a uma festa junina? – debochei de meu melhor amigo enquanto íamos para a aula de história.
– Seu irmão tem uma forma peculiar de me convencer – disse me dando um soco gentil no ombro.
– Me poupem dos detalhes sórdidos – Léo disse comendo seu famoso brownie com recheio de erva – Mesmo chapado ainda posso formar imagens mentais. E não são muito bonitas.
– Acho que você deveria parar de comer esse troço – falei tomando o doce de sua mão.
– Deixa de ser careta, Daniel! – ele protestou erguendo os braços – Eu só preciso disso para me manter Focado.
– Ou se manter fora de foco – Marcelo falou pegando o brownie da minha mão e o jogando em uma lixeira no corredor – Você deveria ter mais cuidado com isso. Ainda vão acabar te pegando.
Leonardo apenas revirou os olhos.
– Mas quem você vai levar para a festa, Daniel? – Leonardo mudou de assunto.
Foi quando eu o vi saindo de uma das salas de aula acompanhado de Giovana e Théo. Seus olhos verdes instantaneamente foram atraídos diretamente para os meus como se estivessem programados para isso. Havia dor e arrependimento naquelas duas esmeraldas brilhantes e por conta disso, tive de lutar para não correr e abraça-lo. Meu frágil Bernardo fitou o chão completamente sem jeito e pude ver que suas bochechas enrubesceram ligeiramente. Deus como eu queria aquele menino em meus braços novamente. Como queria despi-lo e lhe dar prazer. Possui-lo em minha cama enquanto nossos corpos nus entravam em combustão. Como queria poder acariciar aquele cabelo castanho e com o indicador tirar sua franja da frente dos olhos para que pudesse olha-los melhor e depois roubar-lhe um beijo apaixonado que nos transportaria daquele corredor para a clareira de uma floresta encantada onde uma música lenta tocava e ambos trajávamos smokings negros com gravata borboleta e uma rosa na lapela. Flores recobririam a clareira enquanto a luz do sol derramava sobre nós seu brilho dourado. Pássaros assobiavam e voavam ao nosso redor saldando nosso amor.
– Daniel? Você está ai? – Leonardo estalou os dedos diante de mim me trazendo de volta de meu delírio de contos de fadas.
– Ele está hipnotizado – Marcelo disse olhando para Bernardo que se aproximava fitando o chão.
Leonardo olhou para o garoto que eu amava e revirou os olhos.
– Cara você precisa superar! Arranjar alguém. Se divertir um pouco como fez no meu aniversário – Aconselhou-me – Vai ficar nessa bad até quando?
– Eu já o superei – menti percebendo que tinha até mesmo parado de caminhar. Voltei a seguir meu caminho prestes a passar por Bernardo de cabeça erguida, mas Théo me parou.
– Posso falar com você? – ele indagou com aquele sorriso alegre que eu adorava ver em seu rosto.
– Claro! – disse gaguejando um pouco.
– Eu te encontro mais tarde então, Théo – Bernardo disse com aquela voz sofrida sem dirigir o olhar a mim. Acho que ele não aguentaria.
Cobriu a cabeça com o capuz de seu moletom cinza e colocou a mão nos bolsos. Seguiu seu caminho ao lado de Giovana que me deu apenas um sorrisinho simpático.
Ouvir sua voz de certa forma foi mais angustiante do que ver seu rosto. A vontade de agarra-lo ali mesmo era tamanha que minhas mãos tremiam e meu coração palpitava. Cruzei os braços para esconder os tremores em minhas mãos e segui Théo, mas antes me permitir olhar para trás a procura de Bernardo e constatei que ele fizera o mesmo. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez, mas ele o desviou rapidamente e seguiu seu caminho.
– Como está sua cabeça? – Théo indagou.
Instintivamente passei a mão pelo curativo na minha nuca onde eu levei três pontos ontem no final da tarde.
– Não dói mais – respondi com indiferença, pois sabia que Théo tinha um assunto mais importante que meu curativo na cabeça – Aconteceu alguma coisa?
Théo caminhou mais um pouco e se sentou na sombra de uma arvore antiga cuja espécie eu não conhecia. Sentei-me ao lado do meu irmão que passou a mão por seu cabelo loiro com mechas azuis. Não pude deixar de sorrir ao olhar meu irmãozinho crescido e feliz pela primeira vez em anos.
– Esse olhar está me assustando, Dany – ele brincou.
– Só estou admirando a felicidade do meu irmão – falei com sinceridade.
– Eu realmente me sinto feliz – Falou com um sorriso adorável no rosto – Pela primeira vez na minha vida eu me sinto livre. É a melhor coisa que já senti. Sem mágoa, ressentimento ou raiva. É como viver pela primeira vez.
Eu sabia exatamente do que ele falava. Me senti do mesmo jeito quando me entreguei a Bernardo. De repente era como se tudo ganhase cor, som e cheiro. Era como se cada coisa mesmo a mínimas, tivessem um novo significado.
– Você não tem ideia do quão feliz eu fico por você, Théo – falei apoiando minha mão em seu ombro – Você merece isso.
– Você também – Théo disse me olhando no fundo dos olhos – Sei que está triste e sem motivação.
Tirei a mão do ombro de meu irmão e passei a encarar a grama recém-aparada do pátio.
– Eu vou ficar bem – falei querendo acreditar que aquilo fosse verdade – Só preciso esquece-lo.
– Talvez não precise – Agora era Théo quem punha a mão em meu ombro – Bernardo te fazia feliz de uma forma que ninguém nunca conseguiu. É ele quem você ama.
– Mas ele me traiu – cuspi as palavras à medida que as imagens dele junto de Dylan vinham a minha mente.
– Ele cometeu um erro, mas se arrepende de verdade – Théo disse de forma gentil – Quem nunca cometeu um erro?
Olhei para Théo que sorria.
– E como eu poderia confiar nele novamente? – indaguei.
– Da mesma forma que ele confiou que você não o abandonaria novamente – Falou acariciando meu ombro – Lembra de como você o abandonava todas as vezes em que ficavam?
Eu lembrava muito bem do olhar de decepção e rejeição nos olhos de Bernardo.
– Como eu poderia esquecer? – murmurei.
– Se ele pode confiar que você não fugiria e o magoaria novamente, acho que você deveria ao menos dar uma chance a Bernardo – Falou.
– Ele disse que se arrepende? – perguntei disposto a escuta-lo.
– Dizer, ele não disse, mas eu vi nos olhos dele. Ontem quando você se machucou ele saiu de debaixo da arquibancada e correu para te ajudar. Não pensou em nada e nem que vocês estavam separados. Só queria cuidar de você. Mas eu e Marcelo o convencemos de que seria melhor ele ir embora, pois você poderia ficar agitado.
– Ele estava assistindo meu treino escondido? – indaguei tentando me lembrar dele durante aquela confusão, mas tudo o que eu lembrava era da dor e do sangue misturado a água.
– Estava – Théo deu uma risadinha achando aquilo interessante – Ele deve fazer isso sempre. Só para poder te ver.
Sorri também com a ideia de Bernardo escondido me olhando treinar. Ele não queria que eu soubesse, pois poderia me atrapalhar, mas só a ideia de poder me ver de perto o acalentava e acalmava seu coração ferido. Bernardo era tão fofo a ponto de se satisfazer apenas em poder me ver. Ele realmente me amava e eu sabia disso.
– Eu sinto muito a falta dele – falei quase chorando – Eu o amo muito, Théo.
Meu irmão me abraçou apertado e eu me senti seguro.
– Então acho que você deve perdoa-lo – disse com o tom de voz choroso – Não deixe que o orgulho te impeça de ser feliz.
Então o sinal tocou indicando que aproxima aula iria começar.
Ian
Hey, Jude, don't make it bad
Take a sad song and make it better
Remember to let her into your heart
Then you can start to make it better
Os Beatles tocavam em meus fones de ouvido naquele final de tarde quando resolvi ir até seu quarto. Subi as escadas e bati três vezes na porta com os nós dos meus dedos. Não demorou muito para que ele abrisse a porta ligeiramente surpreso em me ver ali.
– Oi – ele disse franzindo o cenho – Aconteceu alguma coisa?
– Não – falei segurando meu braço direito com o esquerdo e percebi que seus olhos rapidamente foram de encontro a este meu gesto – Só queria conversar com você.
Bernardo parecia um pouco inquieto com o fato de eu segurar o meu braço. Claramente ele estava se lembrando da última vez em que conversamos e eu tinha feito o mesmo e sem perceber eu me apertava com força. Agora tinha uma marca levemente arroxeada onde eu mesmo garroteei meu braço com meus dedos.
– Entra – disse abrindo caminho para mim.
Adentrei seu quarto que estava iluminado apenas por um abajur. A janela estava coberta por uma persiana que impedia quase toda a luz do sol poente entrar o ressinto. Tirei meus fones de ouvido e percebi que uma música tocava no seu notebook. Me aproximei e vi que era uma música do Bon Jovi: What do you got.
– Gostei da música – falei me sentando na cama que arrumada que não parecia pertencer a ninguém.
– É a preferida de Daniel – ele disse trancando a porta.
Ao dizer isso pude perceber uma pontada de tristeza em sua voz. Obviamente ainda lhe machucava muito falar de seu ex-namorado. Mas por algum motivo ele escutava a sua música preferida. Talvez como uma forma de mártir pessoal ou talvez para lembrar dos bons momentos que passaram juntos. Seja qual for a resposta, ambas não me pareciam felizes.
– Como você descobriu que era gay? – fui direto ao assunto.
– Não sei – Bernardo deu de ombros sentando-se a minha frente – Acho que sempre soube. Desde criança. Você acha que possa ser gay?
– Nunca pensei no assunto – disse pegando um livro da mesa de cabeceira. Era O gato preto de Edgar Allan Poe – Nunca me apaixonei e nem me senti atraído por ninguém.
E nem queria levando em conta as experiências sexuais que eu tinha.
– Mas algo mudou – Bernardo disse – Você está sentindo algo.
Olhei em seus olhos verdes com ligeira desconfiança, mas de certa forma querendo lhe confiar aquilo que eu sentia.
– Acho que sim – disse colocando o livro de volta no lugar. Me levantei e sentei-me ao lado de Bernardo.
Olhei mais uma vez no fundo de seus olhos verdes e intensos sentindo uma paz ao fazê-lo. Era uma sensação estranhamente agradável como mergulhar em uma piscina em um dia quente de verão. Era como aproveitar o último dia de sol. Senti algo parecido com Dylan ontem à noite e isso me confundia muito. Até aquele momento eu tinha certeza de estar apaixonado por Bernardo, mas Dylan mexia comigo também. Ou talvez eu tenha penas simpatizado com ambos e confundido isso com paixão. Afinal de contas, o que eu conhecia do amor?
Os lábios de Bernardo tremularam e sua respiração tornou-se mais pesada. Ele sabia o que eu estava pensando e sentia o que eu estava prestes a fazer. Então deixei de hesitar. Repousei meus lábios gentilmente sobre os dele e foi estranho. Não foi como os beijos que Jair e Izac me forçavam a dar, era algo bom e intenso. Nossos lábios se moviam silenciosamente e gentilmente enquanto minha mão ia até seu cabelo castanho. Foi quando ele se afastou de mim.
– Me desculpe, Ian – disse começando a chorar – Mas eu ainda não esqueci de Daniel.
– Eu sei – disse fitando o chão.
– Não me leve a mal, você é um garoto muito bonito, mas eu não posso fazer isso com você – ele disse controlando o choro – Não quero enganar mais ninguém.
– Eu sei – falei com o olhar fixo no chão – Mas saiba que esse foi o melhor beijo da minha vida.
E desabei a chorar como uma criança que acaba de se machucar. Bernardo então veio até mim e me abraçou apertado. Eu soluçava e encharcava sua camiseta de lágrimas. Meu primeiro beijo de verdade tinha sido tão puro e tão delicado que me destruíra por dentro. Lembras de todos os beijos que fui forçado a dar me deixara com raiva. A felicidade por desejar alguém me fizera chorar. Era uma mistura bizarra de sentimentos que culminou naquelas lágrimas desesperadas. Era patético, mas eu não conseguia evitar.
– Me desculpe! – Bernardo disse sem jeito – Eu não queria te magoar.
– Não é sua culpa – disse tentando conter o choro, mas era como tentar impedir um tsunami de invadir uma casa a beira-mar – Eu nunca beijei ninguém dessa forma. Todos os meus beijos foram forçados.
Me afastei dele bruscamente ao perceber que eu havia falado de mais. Me levantei da cama e fui para o outro lado do quarto onde me sentei no canto onde a sombra produzida pela cômoda, sugava qualquer luz.
– Tem a ver com seu padrasto? – Bernardo disse matando a charada.
Olhei-o nos olhos feliz por ele não poder ver os meus que estavam ocultos nas sombras. Os olhos verdes de Bernardo pareciam um misto de horror e compreensão. Imaginei se os olhos azuis de Roberta se comportariam da mesma forma caso ela soubesse.
– Não conte a ninguém – pedi com a voz tremula.
– Não vou contar – falou com sinceridade – Pode confiar em mim.
O problema era que eu não confiava em ninguém. Fui traído de uma forma extremamente dolorosa para poder confiar em mais alguém. Meu irmão e meu padrasto destruíram qualquer chance que eu tinha de poder confiar em alguém.
– Não posso – choraminguei baixinho – Não confio em ninguém.
Bernardo então se levantou da cama e se sentou ao meu lado na escuridão. Ele tentou segurar minha mão em um gesto solidário, mas eu me afastei.
– Sei como é não poder confiar em ninguém – ele me contou com morbidez – Fui traído, humilhado e massacrado por pessoas que eu amava. Começou com minha mãe que nunca aceitou a ideia de ter um filho gay. No início ela não demonstrava isso com clareza e cheguei até a pensar que ela me aceitaria, mas ainda assim tinha medo de me assumir. Na época eu achava que meu pai iria me deserdar ou me pôr para fora de casa quando descobrisse e por isso eu mantive em segredo. Foi quando a tristeza e a raiva começaram a tomar conta de mim. Fiquei com vários caras e me submeti as mais degradantes relações sexuais por que sentia raiva de tudo e de todos. Fui humilhado na escola e excluído de pois que descobriram quem eu era e isso só aumentou minha raiva, mas decidi mudar quem eu era e ser mais feliz. Claro que naquele lugar minha fama já estava criada então eu tive de vir para cá.
– Sinto muito – falei sentindo pena de Bernardo, mas não entendia como era sofrer preconceito por ser gay, pois isso eu nunca sofri.
– Mas não foi só isso. Quando eu tinha doze anos meu primo me iludiu e tirou minha virgindade. Eu era apaixonado por ele, mas ele só me usou. A alguns meses eu fui atrás dele novamente então ele me forçou a transar com ele.
Essa parte eu conhecia bem até demais. A sensação degradante de ser violentado e a impotência em poder reagir eram as piores coisas que um ser humano podia suportar e eu não sabia como aguentava aquilo.
– E o que você fez? – indaguei tentando controlar meu tom de voz para que ele não percebesse minha curiosidade, mas acho que falhei.
– Na hora eu apenas chorei e fui embora com raiva – admitiu um pouco triunfante em ter conseguido minha atenção – Mas nesse sábado ele veio até a minha casa e tentou novamente. Mas desta vez eu o enfrentei – ele deu uma risadinha que quase passou despercebida sobre a pouca luz – Ainda não acredito que dei um soco na cara do meu primo que tem o dobro do meu tamanho – a satisfação era notória em sua voz – Contei para o pai dele e para o meu. Eu não vi, mas meu tio garantiu ao meu pai que Gregório foi punido com um a surra.
Fiquei um tempo em silencio decidindo se falava ou não. Não sabia se podia confiar em Bernardo para lhe contar algo de tamanha proporção, mas ao mesmo tempo eu precisava desabafar. O choro de mais cedo representou o ápice da minha dor. Uma espécie de desabafo, mas que ainda assim não era o suficiente. Aquilo ainda estava entalado dentro de mim me deixando louco a cada minuto.
– Meu primeiro beijo foi aos nove anos – falei sentindo meu coração pulsando a uma velocidade alarmante. Minhas mãos tremiam como galhos finos em uma ventania – Eu não queria e nem estava preparado para ele. Não que tenha sido a pior parte, pois ele já tinha feito coisas mais graves comigo. Mas ainda assim me abalou muito. Naquela época eu via o beijo como uma demonstração de amor e de carinho, mas o que ele fazia comigo passava longe disso.
– Seu padrasto abusa de você? – ele indagou para ter certeza.
– Ele e meu irmão mais velho – admiti tirando um peso colossal de meus ombros. Me sentia o Titã Atlas finalmente podendo largar o peso do céu – Um não sabe do outro.
– E você vem mantendo isso desde os nove anos? – Bernardo parecia revoltado, mas ainda tentava manter o tom de voz compreensivo.
– Izac é louco – falei me lembrando das inúmeras vezes que ele me enforcou ou dos socos que ele me dava todas as vezes que eu lhe dizia não – Perde o controle facilmente e seria capaz de matar em um acesso de raiva. Tenho medo dele fazer algo comigo ou com minha mãe e meu irmão mais novo. Jair é bem centrado. Faz tudo com descrição e nunca levantou a mão para mim. No início eu não sabia o que estava fazendo e ele se aproveitava da minha inocência, mas conforme eu fui me dando conta do que estava acontecendo, eu me voltei contra ele. Ele disse que se eu me recusasse a me deitar com ele, ele iria atrás de meu irmão. Segundo ele eu estava ficando muito velho.
– E você nunca falou com sua mãe? – disse perplexo.
Balancei a cabeça negativamente.
– Eu tenho medo dela não acreditar em mim – admiti – Sou o garoto cheio de problemas psicológicos que a família finge que não vê – dei uma risada tentando soar engraçado, mas devo ter soado como um louco.
– E nem seus amigos sabem? – ele agora parecia um pouco menos surpreso – Nem Roberta? Percebi um olhar diferente entre vocês dois no dia que Lorenzo me levou lá a primeira vez.
– Roberta sabe quem tem algo errado acontecendo comigo, mas nunca lhe disse o que era – respondi.
– Mas contou a mim – ele constatou – Por que?
Dei de ombros.
– Talvez por ter compartilhado um de seus segredos comigo – falei – Roberta é uma boa pessoa, mas não compartilha nada comigo. Eu mal sei o sobrenome dela! Como poderia confiar-lhe algo tão sério?
– Você vai se machucar! – Bernardo falou exasperado.
Segui seu olhar que se dirigia para meu braço esquerdo. Foi quando percebi que havia cravado as unhas em minha pele com tanta força que sabia que no momento em que eu me soltasse, o sangue iria vir acompanhado da dor. E foi exatamente o que aconteceu. Um fio de sangue escorreu por cada um dos cinco ferimentos em meu braço. Bernardo se levantou e correu direto até o banheiro e trouxe um pouco de papel higiênico. Limpei o sangue que voltou a brotar em minha pele avermelhada devido as feridas. Tornei a limpar e assim fiz até que o sangue estancasse.
– Eu faço muito isso, não é? – disse forçando um sorriso amarelo – Vivo apertando meu braço.
– O tempo inteiro – ele concordou – Às vezes parece que vai arranca-lo fora.
– O engraçado é que a maioria das vezes eu nem percebo.
Bernardo pegou minha mão examinou uma cicatriz em na vertical em meu pulso. Nossos olhos se encontraram e houve uma conversa silenciosa. Sim, eu já havia tentado o suicídio a um ano e meio. Porém este foi mal sucedido, pois meu Jair me encontrou.
...
Abri os olhos e dei de cara para uma luz branca e forte logo acima de mim. Olhei em volta e eu estava em uma cama de hospital com cortinas cercando todos os lados do meu leito. Olhe para meus pulsos e haviam curativos e em minha fossa cubital havia um jelco vinte e dois acoplado a um equipo simples cujo soro corria lentamente.
Não sabia como havia chegado ali e sinceramente não me importava muito. Só o que me importava era que Deus ou o Diabo achavam que eu não tive sofrimento suficiente em minha vida e por isso tinha sido recompensado com mais um pouco. Decidi cortar os pulsos e morrer naquela tarde e talvez esse tenha sido meu erro. Eu deveria esperar até a noite ou um momento em que não houvesse ninguém em casa.
– Achou que iria se livrar de mim assim tão fácil? – ele disse ao atravessar a cortina – Você ainda vai viver muitos anos, Ian.
Jair sentou-se na cadeira do papai ao meu lado.
– O que aconteceu? – indaguei com a voz quase sumindo devido a fraqueza.
– Você não se lembra de ter cortado os pulsos com uma gilete? – perguntou sarcasticamente – O problema é que quando você caiu no banheiro, você derrubou tudo que estava na pia e o barulho chamou minha atenção. Eu te encontrei e te trouxe para cá. Felizmente chegamos a tempo.
– Devia ter me deixado morrer – disse com cada palavra exigindo um esforço tremendo.
Jair sorriu gentilmente para mim.
– Eu não quero que você morra, Ian – ele passou a mão por meu cabelo – Eu gosto muito de você. Sentiria sua falta.
– Eu te odeio – disse e então tudo ficou escuro novamente.
Nos dois meses seguinte, todos na casa me tratavam como se eu fosse um adolescente feito de vidro. Faziam de tudo para me agradar e para e animar, mas em nenhum momento a minha tentativa de suicídio foi questionada ou sequer mencionada na casa. Podia ver nos olhos de minha mãe que ela estava perdida e completamente desesperada. Não queria perder o filho, mas ao mesmo tempo não sabia o que fazer. Foi um período terrível em minha vida.
...
– Sinto muito que as coisas tenham chegado a esse ponto – Bernardo falou acariciando minha cicatriz em alto relevo – Eu quero te ajudar a se livrar disso.
– Como? – indaguei puxando minha mão para mim.
– Meu pai é juiz e tenho certeza que ele não recusaria te ajudar – falei.
– Por favor não conte a ele – pedi voltando a chorar – Ainda não.
– Mas por quanto tempo você vai aturar isso, Ian? – ele indagou completamente aturdido.
– Prometo que não por muito tempo – disse esfregando os pulsos.
– Suicídio não é a resposta – Bernardo falou – Você vai ficar bem. Basta você querer. Eu posso te ajudar.
Ele estendeu a mão para mim em um gesto solidário. Eu a olhei e estava preste a pega-la, mas ao invés disso eu me levantei. Não podia arriscar que Jair e Izac descobrissem e fizessem mal a Pedrinho e minha mãe. Não iria aguentar viver com esse peso em meu coração.
– Não conte a ninguém – disse antes de sair correndo do quarto de Bernardo.
Corri para o meu quarto e passei por meu companheiro que lia uma HQ do Homem-Aranha. Ele se assustou com minha entrada brusca no quarto, mas eu não me importei com ele assim como ele não se importava comigo. Nós éramos muito diferentes e apenas dividíamos o quarto. Quase não havia dialogo algum entre nós. Me tranquei no banheiro me sentei no chão com as costas apoiada na porta. As lágrimas choravam a medida que o ódio e a dor tomavam conta de mim. Queria aceitar a proposta de Bernardo. Realmente queria, mas tinha medo. Medo pela minha família. Izac era um lunático e completamente insano enquanto Jair já deixara claro seu interesse em Pedrinho. Tenho certeza absoluta que se ele apenas desconfiasse que eu abri a boca para alguém, ele iria atrás do meu irmãozinho. Um garoto inocente e bondoso. Aquele menino de sete anos não merecia uma gota do sofrimento que eu tinha em minha vida. Ele merecia crescer longe disso tudo e feliz. Mas você sabe que é só uma questão de tempo até que você esteja velho demais para ele. E nesse dia ele irá atrás de Pedrinho assim como ele foi atrás de você. Esse pensamento me perseguia dia e noite. Jair era um pedofelo e como tal, gostava de se relacionar com crianças. O problema é que eu estava beirando os dezessete e não era mais aquele garoto de nove anos que ele abusava. Eu estava me tornando um homem e Jair sabia disso. O tempo estava contra mim.
Não sei exatamente quando adormeci, mas acordei com meu celular tocando em meu bolso. Peguei-o e percebi que era o número deJair. Tive que me controlar para não ignorar a ligação, mas sabia que se ele estava me ligando as duas da manhã, algo estava errado.
– Alô? – atendi com a voz sonolenta.
– Pega suas coisas que eu estou indo te buscar – falou com o tom de voz autoritário.
– O que? – indaguei confuso – Você está maluco Jair?
– Só faz o que eu te mandei moleque! – Jair gritou no telefone. Pude ouvir o som da buzina do seu carro. Algo aconteceu e sabia que ele não me falaria por telefone – Eu chego em uma hora.
– A direção não vai permitir – tentei argumentar.
– Deixa que eu me viro com a porra da direção! – ele estava completamente alterado – Vá tomar um banho e vista aquela sua camisa no Batman. Sabe que fica gostosinho com ela.
E desligou o telefone. Me levantei do chão do banheiro e me olhei no espelho. Meu rosto estava inchado de chorar, mas ele não se importaria com isso. Só o que ele queria era me foder. Queria manda-lo ir a merda, mas se fizesse isso ele iria atrás de Pedrinho. E isso eu não iria aguentar. Entrei no chuveiro e me vesti da forma que ele me instruiu e fui para a entrada da escola. Não demorou nem cinco minutos e seu Fox prateado surgiu atrás do portão de grade. E para a minha surpresa Jair não estava só. Uma figura adormecida no banco traseiro me chamou a atenção. Era Pedrinho.
...
Bom galera, espero que tenham gostado de mais esse capitulo.
Até o próximo!