O Machão Idiota Que Eu Aprendi a Amar

Um conto erótico de Tiago/
Categoria: Gay
Data: 03/03/2015 14:03:36
Última revisão: 27/08/2020 23:46:36
Nota 9.75

ATENÇÃO: Esse conto O Machão Idiota Que Eu Aprendi a Amar não está mais completo aqui no site. Tenha isso em mente antes de ler. Ele está sendo republicado em vários capítulos no Wattpad, com uma versão em formato de livro da história. Basta procurar pelo título LIDANDO COM VALENTÕES na plataforma de leitura Wattpad.

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Valentões podem ser uma constante dor de cabeça. Não seria tão ruim se pudéssemos lhe dar um pé no saco a cada vez que atravessassem o nosso caminho, talvez assim aprendessem que não são invencíveis. Eu só não cheguei a tanto porque jamais tive condições físicas para peitar qualquer um deles, ainda que jamais tenha sido indefeso também. Se o troglodita tem músculos para oprimir, eu tenho um cérebro para revidar.

No entanto, não me entenda errado, eu não sou um gênio do mal disposto a me vingar de todos os valentões do mundo, embora a vontade exista. Comigo ocorre justamente o contrário: por ser muito bonzinho, apenas um desses caras foi capaz de me tirar do sério a ponto de me fazer enfrentá-lo.

Se não bastasse a arrogância do sujeito, ele fez isso justo num cinco de março, o dia do meu aniversário. Passar essa data, que já não é das melhores, mordido de ódio por um babaca que encontrei na rua não foi exatamente o que pedi em minha prece na noite passada.

Para ser justo, o dia até que começou bem. Eu tirei a melhor nota no meu projeto sobre meios de comunicação na faculdade. Fui tão bom que o professor fez questão de me citar como o melhor na frente da turma inteira. Mesmo que ninguém soubesse ou se importasse com a minha “comemoração de aniversário”, esse pequeno reconhecimento foi um presente simbólico para mim. Algo totalmente justo, modéstia à parte, pois o meu trabalho estava muitíssimo bem feito.

A classe aplaudiu, alguns de boa vontade e outros a contragosto. Na faculdade, assim como na escola ou no trabalho, pode ser que você acabe rivalizando com outro aluno para ser o número um da turma. Nessas disputas, é claro, um deles pode se sentir injustiçado com o resultado, o que é um sentimento perfeitamente compreensível do meu ponto de vista. O problema, nesse caso, é que o meu adversário nunca se contentou em apenas “se sentir prejudicado”. Ele sempre fez questão de jogar na minha cara, indiretamente ou não, que eu não era digno ou bom o suficiente em todas as vezes que o deixei para trás como o melhor da turma.

O pior é que começamos a faculdade juntos, e de lá para cá temos nos enfrentado durante o curso como se fôssemos inimigos de infância. Eu até tentei ser amigo dele, mas a sua realidade parece fechada a pessoas como eu, digo, da minha classe social. Então eu me recolhi e deixei que ele iniciasse sozinho essa olimpíada entre nós.

Orgulhoso como é, Fabrício não aceita que alguém o ofusque perante uma classe de riquinhos como ele. Ainda mais quando o seu pai, Antenor Barone, político famoso e claramente desprezível, paga uma mensalidade caríssima para que o filho estude numa das melhores faculdades do país. Sendo assim, por se sentir tão mais merecedor do que eu, ele precisou deixar isso claro quando saímos da aula.

— Parabéns, Benjamin. De novo você foi o melhor. – Disse enquanto eu tomava água no bebedouro. – Se ganhasse estrelinhas toda vez, já nem teria onde colocar.

Inicialmente, eu optei por ignorar sua ironia. Se eu me fizesse de doido, quem sabe ele simplesmente desistisse.

— Valeu. Eu também gostei da sua apresentação. Deve ter sido difícil toda aquela pesquisa.

— Sim, meu trabalho estava muito bom. Aparentemente não o suficiente para superar o seu... De acordo com alguns comentários da nossa turma, é claro. Queria ver essa disputa num cenário onde você não tenha tantos simpatizantes.

— Por quê? Está insinuando que só ganho porque as pessoas gostam de mim?

— Não, de jeito nenhum. Longe de mim pensar uma coisa dessas. Sei que, na sua condição de bolsista, você precisa construir amizades, já que a maioria das pessoas aqui é de um mundo diferente do seu.

Oh, Céus! Por que minha paciência é tão curta às vezes? Inclusive, foi um pouquinho mais de tolerância que pedi em minha prece antes de dormir.

— De que mundo você está falando? Pensei que viéssemos todos do planeta Terra. Descobriram algum outro habitado?

De braços cruzados, ele riu e sacudiu a cabeça.

— Você entendeu o que eu disse, Benjamin.

Com certeza entendi! Pessoas esnobes existem aos montes, e numa universidade cara, você encontra uma a cada metro. O que costumo fazer quanto a Fabrício é evitá-lo sempre que possível, e não dar margem aos seus ataques. Por questões econômicas e sociais, eu sou o elo mais fraco, e não estragarei a minha estadia como bolsista por causa de uma briga baseada em arrogância.

— Olha, Fabrício, sinto muito que não tenha atingido a nota que gostaria. Independentemente do que pense a meu respeito, tenho certeza que nós dois nos esforçamos ao máximo. Relaxa com essa história, tá bom? Nos vemos amanhã.

No fundo, eu não queria ser tão amigável assim, mas você precisa saber jogar quando o adversário é mais forte. Fabrício, sendo filho de um canalha poderoso, não é exatamente o tipo de inimigo que eu quero inflamar. Imagina se eu perco a bolsa porque o pai dele resolve se queixar sobre mim? Isso seria o cúmulo!

Contudo, não criem expectativas com a presença desse riquinho prepotente, pois ele não é o valentão que mencionei no começo dessa narrativa. Coitado, tem nem tamanho para isso! Capaz até de ter sofrido os mesmos bullyings que eu. Sim, porque Fabrício nunca me enganou com o seu jeitinho pretencioso de ser. Aliás, nunca enganou ninguém, na verdade. Imagino o que deve passar com o pai supostamente conservador que tem. Quanto a esse aspecto, estamos no mesmo barco, e como eu não tinha interesse em sua companhia, o deixei sozinho no bebedouro e fui me sentar em um dos bancos em frente ao prédio no qual tivemos aula.

Aproveitei esse momento para conferir as felicitações de aniversário em meu celular. Algumas de amigos, outras de conhecidos, uma da minha tia Catarina pedindo que eu passasse na lanchonete depois da aula e, surpreendentemente, até uma breve mensagem do meu pai, acompanhada de outra um pouco maior da minha mãe. Como nossa relação anda meio estremecida, eu não estava esperando muita coisa além de ser ignorado. Às vezes o melhor que você faz é dar um tempo da família.

Pensativo, olhei para o céu da manhã e ele pareceu um cenário azul de cartão postal. A tempestade da noite anterior foi assustadora e barulhenta, mas agora, o único resquício da sua passagem eram as poças de água espalhadas pela cidade. Até as árvores pareciam mais verdes. Seria mesmo um belo dia ensolarado. Seria...

O celular vibrou com uma chamada do meu irmão, fato que interrompeu qualquer pensamento bom que estivesse tomando conta de mim. Eu demorei a atender porque pensei bastante se faria isso mesmo. Algum estresse certamente viria. Meu querido irmão tem se mostrado bem eficiente nesse propósito.

Henrique é três anos mais velho do que eu, e sempre foi o filho preferido da minha mãe. Nossa convivência costumava ser pacífica até o dia em que ele traiu minha confiança e causou um verdadeiro escarcéu dentro de casa. Numa noite eu lhe segredei a minha orientação sexual, e na manhã seguinte acordei com uma erupção vulcânica na mesa do café. Meu pai odiou ter a certeza de que seu filho mais novo não levaria adiante o modelo de masculinidade dos homens da família, ainda que estupidez e mediocridade fizessem parte do sistema operacional.

Foram dias tensos em que ouvi muitas broncas e sermões. Não é fácil conviver com pessoas iguais aos meus pais. Os dois são contadores, e jamais souberam calcular um projeto de pensamento menos arcaico. Isso fez com que eu me afastasse deles para não perder a sanidade depois. Quanto ao meu irmão, acabei por perdoá-lo ocasionalmente, ou pelo menos tentei, porque a mágoa restou.

— O que você quer, Henrique?

— Opa! Calma aí, irmãozinho! Só liguei para te dar parabéns! Não é todo dia que se faz vinte e um anos. Você nunca mais deu notícias, nós ficamos preocupados.

— Sei... Moramos na mesma cidade, basta que me visitem. Imagino que esteja tudo bem lá em casa.

— Sim, como sempre. Quer dizer, papai tem reclamado da sua ausência, e mamãe estava dizendo que você nos abandonou.

— Não abandonei ninguém, Henrique. Só fui morar em outra casa por ser mais perto da faculdade, e também porque a situação aí estava insustentável. Você, papai e mamãe estavam me infernizando o tempo todo. Até o nosso tio veio falar comigo uma vez.

— Nós só queremos o seu bem.

— Estranha forma de demonstrar.

— Ah, Benjamin, supera isso! Sabe que eu não ligo de você ser gay. Será que não pode me perdoar de vez?!

Fechei os olhos e busquei calma no fundo do coração. Henrique sempre se desculpava como se não fosse nada demais. Me deu vontade de gritar com ele.

— Ei, você ainda está aí?

— Sim, ainda estou.

— Ficou calado, pensei que tinha me deixado falando sozinho.

— Só não tenho mais nada a dizer.

— O papai tá querendo que você volte. Disse que te leva para a aula todos os dias se for o caso.

Claro, e isso não tem nada a ver com o fato de eu estar ocupando uma das suas melhores rendas.

— Você pode dizer a ele que eu vou liberar a casa que me emprestou o mais rápido possível. Só preciso encontrar um trabalho que pague melhor. É difícil porque os melhores empregos não aceitam contratar por meio período, e eu não posso desistir dessa faculdade para trabalhar o dia todo. Já foi muito difícil entrar.

— Ele só quer que volte para casa, Benjamin. Não tá te cobrando nada não.

— Por favor, Henrique, sabemos que papai odiou me ceder aquele lugar. O dinheiro do aluguel era excelente.

— Quem tá tocando nesse assunto é você. Ninguém jamais falou nada.

— Tanto faz, apenas diga que tenho consciência de que estou empatando e que encontrarei um novo lugar assim que possível.

— Você é muito vitimista, por isso mexiam tanto com você na escola.

— Obrigado por perceber. Tem mais alguma coisa que queira dizer? Eu preciso ir agora.

— É... tem sim. – Abrandou a voz de um jeito envergonhado. – É que meu salário vai atrasar uns dias, e papai já disse que não pode me ajudar dessa vez. Ele tá cheio de coisa para pagar com a reforma da nossa casa, sem falar no que ele manda mensalmente para a Melissa lá na Nova Zelândia. Aí eu queria saber se tu pode me ajudar no que eu tô precisando.

Ai, caramba... Vi logo aonde isso nos levaria.

— Não precisa de rodeios, Henrique.

— Então, é que eu tô com duas parcelas atrasadas da minha moto...

— O quê?! Duas parcelas?! O que você faz com o seu dinheiro?

— Poxa, nem sempre dá para pagar tudo. Tenho vários gastos também.

Eu sei quais gastos são esses: roupas extremamente caras para si e para a namorada. Que pateta!

— Henrique, você ganha mais do que eu. Além disso, você ficou com o antigo carro do papai. Se livra dele ou se livra da moto. Para quê dois veículos? Papai nunca te ensinou nada sobre responsabilidade financeira? Eu não tenho dinheiro para te ajudar.

— Ah, fala sério, Benjamin! Sei que você economiza, e ainda ganha por fora fazendo as tarefas dos seus colegas riquinhos. Não custa me dar essa mão agora. Lembra da última vez que me pediu socorro no meio da noite e eu fui correndo te salvar? Isso não conta?

De fato, eu tinha mesmo algum dinheiro guardado, coisa que eu vinha economizando desde o tempo em que recebia mesada do meu pai. Henrique, por outro lado, sempre foi problemático na questão financeira, e depois que papai parou de passar a mão em sua cabeça, ele acabou mirando em mim durante as emergências. O pior é que, mesmo sabendo que não merece, eu ainda o ajudo de vez em quando, até porque eu preciso dele ocasionalmente.

Aliás, por falar em Henrique, meu querido irmão também pode ser classificado como um valentão de marca maior, já que preenche todos os requisitos possíveis, inclusive, a burrice.

— E então, vai quebrar essa para o seu irmãozão?

Droga! Talvez o pateta fosse eu por não conseguir negar.

— Se você prometer nunca mais me ligar para dar parabéns, eu pago o preço. Mas só posso ajudar com uma parcela, entendeu? Nada mais do que isso. E ouça bem, Henrique, eu quero esse dinheiro centavo por centavo depois, senão eu mesmo dou um fim na sua moto.

— Certo! Não se preocupe, o resto eu peço emprestado de um amigo. Você já vai me ajudar bastante.

— Tá. Depois eu faço uma transferência. Diz para a mamãe que ela pode aparecer quando quiser. Agora me deixa em paz.

Desliguei o telefone sem permitir que me dissesse algo mais. Henrique não merecia o meu precioso tempo, porque até o meu amor fraterno ele conseguia pôr à prova. Nasci bem arranjado com esse irmão folgado.

Me levantei para ir embora e, enquanto passava a alça da minha bolsa pelo pescoço, vi Fabrício num banco ao longe, me encarando junto de um colega de outro curso. Ele disse algo ao amigo e os dois sorriram olhando para mim. Ou, sendo mais preciso, os dois sorriram de mim. Outra cena comum em minha rotina universitária. No começo irritou, depois se tornou apenas incômoda.

Porém, eu não me deixei abater por essas bobagens. Fabrício ou Henrique não estragariam a ocasião. Eu tinha tirado a melhor nota, e eu tinha o dia de folga por causa do meu aniversário. Estava ótimo desse jeito!

Decidi aproveitar a data em um passeio pela cidade e, quem sabe, até comprar algum presente para mim. Só tinha que ir ver a minha tia antes, pois sabia que ela estaria me esperando com um lindo bolo em comemoração. Apesar de tudo, família pode ser excelente também.

Fui para a saída do campus, em direção ao ponto do ônibus que costumo pegar, mas, pelo horário, ele ainda demoraria uns minutos a passar. Como eu estava sozinho e não quis permanecer esperando na cabine, deixei minha bolsa lá e resolvi perambular pela calçada, tirando fotos do céu azul que eu queria gravar. Um fato sobre mim: eu amo dias brilhantes. Que bom que um deles calhou no meu feriado particular.

Assim, enquanto eu me distraía na beira da calçada com o celular apontado para o alto, um jipe saiu do estacionamento da academia em frente ao ponto de ônibus; só pode ter vindo de lá, pois nenhum carro vinha saindo da universidade até então; deu a volta na rotatória e passou a menos de um metro de onde eu estava. Tão perto e tão desleixado que acabou fazendo a água da chuva, acumulada ao lado da calçada, espirrar feito um banho de mangueira sobre minha roupa. Se tivesse mirado, o desgraçado não teria acertado tão bem. Por pouco não deixei meu celular cair dentro da poça.

Para quem já tinha se irritado minutos antes, minha reação foi quase imediata. Eu não resisti a esbravejar com a situação:

— Seu... estúpido!! Olha o que você fez, infeliz! Comprou a carteira, por acaso?!

Isso pode ser considerado sorte ou azar, mas o motorista escutou minha fúria e não se intimidou em parar o jipe um pouco mais adiante. A porta foi aberta e um cara desceu para me enfrentar. Um cara de no mínimo um metro e oitenta, para ser exato. Eis aí o valentão que nomeia o meu relato. O presente de aniversário que me faltava.

É claro que me senti uma formiga ao vê-lo marchar com tanta empáfia contra mim. Eu não teria a menor chance se ele estivesse mesmo tão ofendido quanto aparentava.

— Do que foi que você me chamou?!

Considerando as opções entre ser nocauteado ou pedir desculpas, eu preferi desconversar e tentar sair de fininho.

— Ah... Eu disse que vou tirar minha carteira para comprar um carro igual ao seu. É realmente lindo. Qual o modelo mesmo?

Óbvio que o grandão indignado não acreditou nessa fraca historinha. Infelizmente, nem sempre se pode contar com a burrice desses caras. Teria sido melhor pedir desculpas mesmo, o que não consegui fazer também, pois o troglodita não me deu tempo de reconsiderar. Me agarrou de maneira brusca pela camisa e praticamente tirou os meus pés do chão. Numa realidade perfeita, seria nesse momento que meus poderes mutantes se manifestariam e eu acabaria com a raça dele.

— Eu ouvi muito bem o que você disse! Tá me achando com cara de imbecil, moleque?!

Olha, para falar a verdade, a cara me pareceu até bem agradável, contudo, pela sua atitude desmedida, eu julguei que ele tinha sim um elevadíssimo grau de imbecilidade. Além disso, o fato de um estranho raivoso me segurar daquela forma, como se tivesse direito de tocar em mim, me deixou zangado o suficiente para correr o risco de enfrentá-lo. Estávamos em público, afinal.

— Acho que você precisa tratar as pessoas com mais educação, e seria bom que aprendesse a dirigir também. Tire suas mãos de mim!

Minha resposta atrevida o fez esbugalhar os olhos como se visse uma aparição. Provavelmente não acreditou no disparate que ouviu, ainda mais vindo de alguém tão... inofensivo. Talvez fosse a primeira vez que lhe dissessem umas verdades, e sendo justo eu, a coisa deve ter soado mais absurda ainda.

— Eita! Que língua desaforada! Um tampinha do seu tipo devia ter cuidado com o que fala. – Apertou meu colarinho com mais força. – Tem um último desejo para fazer?

Bem, se eu ia mesmo apanhar, o que estava parecendo inevitável, apesar das câmeras e das pessoas, ao menos apanharia sem abaixar a crista. Quem sabe alguém filmasse e me transformasse numa sensação da internet.

— Engraçado, sabe que eu tenho? – Respondi com um sorriso cínico.

Outra vez, seu rosto surpreso e a falta de reação me provaram que eu tinha meios para enfrentá-lo, ainda que o resultado continuasse a minha derrota.

— Diz qual é, pirralho!

— Desejo que você me solte e me deixe ir. Só isso! Acho justo, e você me deve por ter me sujado de lama.

— Eu devo a você?

Sua pergunta soou risonha, embora continuasse perigosa. Eu não pensei numa resposta porque, antes que o fizesse, uma mulher apareceu na janela do carro a chamar por ele:

— Carlos, vamos embora! Deixa esse idiota aí! Eu tô morrendo de calor aqui. Vamos logo!

Após ouvi-la com a cabeça virada para o lado, o troglodita retornou a falar comigo:

— Você tem sorte, tampinha. Ela acabou de te salvar. E como eu não tenho tempo para desperdiçar, vou realizar o seu desejo agora mesmo.

O desgraçado nem esperou que eu reagisse ou, no caso, suplicasse por misericórdia, simplesmente me jogou na poça de lama como se joga uma latinha de refrigerante pela janela do carro. E só para esclarecer, eu nunca cometi esse tipo de atrocidade.

— Aí está a educação que você pediu, tampinha. Da próxima vez, fica calado quando os adultos passarem! Confia no que eu digo.

Sorrindo, o imbecil recuou até chegar ao seu carro e, quando entrou, ainda gritou para mim lá de dentro:

— Vê se não vai sujar a roupa, pirralho!

— Inferno! – Bradei quando o jipe se afastou. – Se eu tivesse super poderes realmente... Que droga de vida!

Após me levantar, eu me limpei o máximo que pude diante de algumas moças que chegavam ao ponto de ônibus e tinham observado a palhaçada toda. Se não bastasse a vergonha de ser humilhado em público, ainda havia mais alguém que estava saindo da universidade justo nesse momento.

O carro preto e luminoso parou na minha frente, e a janela traseira de vidros escuros se abriu para que Fabrício falasse comigo.

— O que aconteceu? – Seu sorriso estava radiante como o sol. – Finalmente encontrou o seu lugar?

Dessa vez eu não consegui me segurar.

— Na verdade, só estou testando a profundidade da lama para quando for te afogar aqui.

— Hum... Duvido muito. Pena que não peguei o momento da queda.

— Me deixa em paz! Segue o seu rumo, Fabrício!

— Pode deixar, já estou indo mesmo. Eu te daria uma carona, mas o chofer do meu pai tem mais o que fazer. Além disso, você está todo sujo e molhado. Acho que nem o ônibus te aceita hoje.

Senhor, me dê serenidade para não riscar a cara desse menino! Pensei ao fechar os olhos.

— O que foi? Está passando mal?

— Sim, por respirar o mesmo ar que você. Vê se me esquece, tá bom?!

Lhe dei as costas e me afastei depressa, verificando o estado do meu celular, que felizmente não se quebrou. Para fechar com chave de ouro, ainda tive que suportar a sua risada junto com o barulho automático do vidro a se fechar. Que ódio!

Por que pessoas ruins têm tanta sorte? É sério, vocês já perceberam isso? Tudo parece conspirar a favor delas. Eu sou um amor de pessoa, e mesmo assim tenho que pegar ônibus literalmente após sair de um lameiro. Fabrício é um filhinho de papai que destrata os outros baseado em status social, mas tem tudo de mão beijada e ainda possui um carro luxuoso com motorista para levá-lo aonde quiser. Não me entendam mal, não é inveja... Ok, talvez seja um pouco, porém, a grande questão é que eu não deveria ser tão ferrado assim.

Acho que ser uma boa pessoa não tá valendo muito para mim. De fato, se eu fosse um pouquinho maior e mais forte, pegaria aquele brucutu que me jogou na lama e quebraria a cara dele na porrada até ele aprender a agir como uma pessoa civilizada. E se Fabrício aparecesse para infernizar, levaria um cascudo de afundar no chão também.

— Quem eles estão pensando que eu sou? – Murmurei ao entrar na cabine. – Cretinos arrogantes!

— Aquele cara te machucou? – Uma das universitárias quis saber. – Você está bem?

Fingindo normalidade, eu olhei para ela e lhe dei um amável sorriso ao vestir a alça da minha bolsa.

— Por enquanto não, mas vou aprender a lidar com esses babacas.

— Boa sorte, então.

— Obrigado.

À nossa frente, o imenso ônibus estacionou. As portas se abriram e as moças entraram. Eu desfiz meu sorriso e suspirei de raiva mais uma vez. Dia ensolarado uma ova! Fabrício não é problema, apenas rotina, no entanto, ser pisoteado por um novo imbecil que se acha grande coisa por ter músculos vistosos e por ser... razoavelmente bonito, me irritou de verdade. Que ele não apareça em meu caminho outra vez, porque eu certamente darei um jeito de retribuir sua boa educação.

CAPÍTULO 02

Catarina, irmã mais nova do meu pai, é o membro mais legal da minha família. Provavelmente a melhor pessoa que eu conheço. Ela e o seu marido me ajudaram bastante quando decidi morar sozinho, oferecendo, inclusive, um emprego de meio período em sua lanchonete, para que eu pudesse conciliar com a faculdade.

Quer dizer, meio período é força de expressão, porque eu trabalho quando posso: dia sim, dia não, às vezes de manhã, às vezes a tarde, muitas vezes à noite. Meu privilégio por ser o sobrinho predileto. O fato é que sem eles provavelmente eu teria continuado a aturar a ignorância dos meus pais dentro de casa.

Pois bem, após a minha ‘situação’ com o brucutu valentão, eu, que sempre fui tão limpinho, cheguei à lanchonete em um estado visualmente deplorável. Minha tia até se assustou ao me ver todo molhado.

— Meu Deus! Benjamin, o que aconteceu?

— Escorreguei numa poça d’água, tia. Foi um horror!

— Ai, pobrezinho! Vem, senta aqui para eu ver você.

Olhou para trás e informou à moça que trabalha no período da manhã:

— Vanessa, daqui a pouco traga aquilo que combinamos, está bem? Vou falar um pouco com Benjamin. Venha, querido.

Fomos para uma mesa afastada dos clientes e nos sentamos para conversar.

— Como isso aconteceu, meu bem?

— Desatenção, tia. Andei distraído olhando para o céu e não vi a poça d’água.

Sua cara de reprovação foi evidente.

— Não mente para mim, Benjamin. Você está me enrolando. Diga o que aconteceu realmente.

Bem, não tinha como fugir da percepção aguçada dela.

— Tá bom... Foi um idiota que atravessou meu caminho e me molhou com o carro. Quando eu reclamei, o imbecil ainda desceu para tirar satisfações.

— Não me diz que ele bateu em você...

— Bater exatamente não, mas me jogou no chão, ou melhor, na água. Não molhei meus cadernos porque não estava com minha bolsa.

— Que infeliz sem educação! Você o conhece? É da sua faculdade?

— Não sei, tia. Deve frequentar a Árion, uma mega academia que fica logo em frente. Se eu pudesse, teria cortado o pescoço dele.

— Ainda bem que não fez nada. O mundo está cheio de homens das cavernas, o melhor a fazer é ficar bem longe.

— É, tem razão... – Com o olhar perdido em direção à rua, eu escorei meu queixo nas mãos. – Às vezes ser um tampinha, como ele me chamou, é frustrante demais.

— Você é perfeito do jeito que é, Benjamin. Não deixa um idiota te fazer pensar diferente. Agora, esqueçamos isso, pois eu te chamei aqui por um motivo especial, e acho que você sabe qual é.

Sorrindo, eu neguei com a cabeça e me fiz de inocente:

— Não, tia, eu não sei de absolutamente nada.

— Mentiroso. – Ela riu. – Até parece que não conhece sua tia.

Um pequeno bolo de aniversário foi posto sobre a mesa por Vanessa.

— Parabéns, sobrinho! Não é muito, mas, como você disse que não queria festa, foi o que conseguimos fazer.

— Está ótimo desse jeito, bem mais do que eu ganharia em casa. É o suficiente para mim.

— Nada disso, a melhor parte está por vir.

— Como assim?

Ela mexeu no bolso do avental.

— Você acha que eu ia deixar passar essa data sem um presente de verdade. – Mostrou um pequeno chaveiro na mão esquerda. – Sei que você está querendo se mudar.

Meu queixo caiu na mesma hora.

— Essas chaves são...

— O rapaz que alugava a nossa casa aqui perto as entregou para o seu tio. Parece que vai morar em um edifício no centro agora. Rodrigo me deu a ideia e eu achei maravilhosa. Você pode ficar lá pelo tempo que quiser. Já está mobiliada e não precisará levar nada além das suas roupas.

— Tia Catarina, isso é muito mais do que eu poderia esperar. Não sei se posso aceitar algo assim. Vocês já fazem muito por mim com esse emprego.

— Claro que pode aceitar. Você não disse que quer sair da casa do seu pai para que ele possa alugá-la de novo?

— Sim, claro, mas aí ficaria a mesma coisa. Se eu ocupar a casa de vocês sem pagar nada, vocês também perderão o aluguel que ganham com ela.

— Querido, essa lanchonete rende tudo o que precisamos e muito mais. Por que você acha que os sanduíches são tão caros? Além disso, seu tio ganha muito bem como advogado, não precisamos desse aluguel. Você sim é que precisa de um lugar para morar onde se sinta bem. E é mais perto do seu trabalho do que a outra casa em que vive. Já tem até a desculpa para o seu pai.

— Eu nem precisaria de uma. Ele vai pular de alegria ao ter sua renda de volta.

— Não diz isso, Benjamin. Meu irmão é um conservador medíocre, mas tentou ser um bom pai apesar de tudo.

— Tá... Conservador quando convém. Ter uma filha fora do casamento não é exatamente o conservadorismo que se espera de alguém. Por pouco não joguei isso na cara dele durante a última briga que tivemos.

— Não faça isso, querido. Seu pai ficará magoado. Essa história já foi superada há vinte anos. Ele ama vocês três igualmente.

— Não tem a menor chance de eu acreditar nisso, tia. Meu pai adora Melissa como se ela fosse uma princesinha inocente, e Henrique é o filho preferido da minha mãe, mesmo com todos os problemas que arranja. Eu sempre fiquei suplantado entre eles.

— Benjamin, não fique pensando nisso. – Pegou minha mão. – Famílias são complicadas mesmo, mas, de uma forma ou de outra, o importante é que todos vocês se amam. Isso é que faz a diferença.

Diferença para quem? Para mim é que não é.

— Tudo bem, tia... – Olhei para o bolo. – Vou me forçar a confiar nessa teoria. O importante, de verdade, é que tenho você. Acho que saí ganhando no final.

— Exatamente. – Ela se forçou a soar animada ante a minha melancolia. – Seu tio e eu te amamos demais do jeito que você é, por isso mesmo queremos que fique confortável. E então? – Colocou as chaves abaixo dos meus olhos. – Vai aceitar nosso presente?

— Tem certeza de que não será um incômodo?

— Absoluta! Não usaremos aquela casa para mais nada. Você pode ficar o tempo que quiser.

— Bem, se for assim... – Não consegui esconder o meu sorriso envergonhado. – Nesse caso eu aceito.

— Ótimo! É a decisão que eu esperava.

Ela se levantou para me dar um abraço.

— Feliz aniversário, querido! Tenho certeza que esse será um grande ano!

Tia Catarina conseguia fazer a teoria de que eu só me dava mal cair por terra em poucos gestos. Acho que ser uma boa pessoa também tem suas recompensas. Poucas, mas tem. A minha, no caso, foi finalmente me livrar do peso de não me sentir independente o suficiente do meu pai. Ser dependente da minha tia pareceu um negócio muito mais vantajoso, e não seria para sempre também. Quem sabe eu até possa comprar sua casa algum dia.

Quando saí da lanchonete minutos depois, estava tão feliz que me atrevi a enviar um pequeno áudio para a minha mãe, explicando a nova situação e informando que a casa de papai ficaria vazia no mesmo dia. Ela se sentiu incomodada por ser preterida pela sua cunhada, e resolveu me falar isso em uma longa mensagem, só que eu não tinha culpa se meus tios me entendiam melhor que meus pais. Foram eles que definiram as coisas assim, não eu.

De todo modo, pedi desculpas à minha mãe e disse que a amava, assim como ao meu pai, mas que a minha nova casa seria muito espaçosa e mais perto dos lugares que eu frequento constantemente: trabalho e faculdade. Então não havia muito o que discutir, ela precisou entender que eu não estava simplesmente escolhendo a minha tia, embora eu estivesse.

Minha mudança foi breve e, de fato, eu precisei levar apenas minhas roupas e alguns objetos. A sensação quando abri a porta e olhei para o interior da casa foi muito diferente. Feliz, para ser exato. O ambiente me pareceu cem vezes mais aconchegante do que aquele de onde eu estava saindo. E não estou falando de luxos ou espaços, mas simplesmente de aconchego visual: uma simples casinha bonitinha como as de filmes românticos. Paredes brancas, uma grande sucessão de plantas variadas por fora e por dentro, presentes que tia Catarina fez questão de instalar antes que eu me mudasse. Sofás, televisão, escrivaninha, uma estante vazia para que eu decorasse... Um sonho em todos os sentidos. Eu não precisaria de mais nada em matéria de casa.

— Quem morava aqui é melhor ter se mudado para um lugar dez vezes melhor. – Parei com minhas malas no meio da sala e analisei o recinto. – Do contrário, foi um péssimo negócio! Acho que serei feliz aqui.

O resto da noite eu passei arrumando minhas coisas, decorando a estante, colando meus pôsteres de filmes e séries nas paredes do quarto e, por fim, procurando cada pequeno espaço por onde um pequeno roedor pudesse entrar. Eis um fato sobre mim: eu tenho verdadeiro pavor desses animaizinhos. Não sei de onde esse pânico vem, mas eu surto muito fácil quando se trata de ratos. Jogue um em cima de mim e você verá um escândalo de proporções monumentais na sua frente.

Havia um intruso na minha antiga casa, e após todos os gritos, drama e correria, eu tive que chamar Henrique para lidar com ele às nove horas da noite, do contrário, eu não conseguiria viver ali. O meu novo lar, no entanto, pareceu bem seguro, e se eu mantivesse a limpeza sempre em dia, assim como as portas e janelas fechadas, não teria problemas com roedores... provavelmente.

Esse presente de aniversário, que eu considerei o melhor presente do mundo, me animou tanto que até o incidente com o imbecil do jipe se tornou irrelevante. Nos dias seguintes, eu pouco lembrei disso, pois andava muito bem com a vida, tanto que nem Fabrício com os seus cochichos pôde me irritar. Inclusive, eu tinha parado de assistir filmes de vinganças sangrentas antes de dormir, uma terapia problemática que desenvolvi ao longo dos anos.

Ainda assim, não tome minha falta de pensamentos sobre ter sido jogado na lama como esquecimento puro e simples. Eu não esqueci e jamais poderia, apenas não estava na vibe para ficar remoendo essa história.

Carlos, como a namorada o chamou, ou seja lá qual for o nome real dele, é um homenzinho pequeno demais; simbolicamente falando; para que eu ficasse me dignando a mantê-lo em minha cabeça. Decidi que não me rebaixaria a esse tipo de coisa. Para quê ficar pensando em um troglodita, não é mesmo?

Essa arrogância, entretanto, durou menos do que planejei, porque a sorte conspirou ao meu favor... ou contra mim. Mais uma vez, depende do ponto de vista. No meu caso, eu encarei como um aviso de que grandeza de espírito não faz o meu estilo.

Era uma tarde tediosa na lanchonete, com apenas um cliente e poucos funcionários. O movimento costuma diminuir até acontecer o boom da noite. Eu estava sozinho no balcão, jogando palavras cruzadas no celular, quando a oportunidade de uma pequena retribuição atravessou o meu caminho.

Como se o próprio carma lhe pegasse pela mão e o trouxesse para mim, Carlos e eu nos esbarramos mais uma vez. Eu lembraria do seu rosto e do seu carro onde quer que fosse, e tinham se passado apenas dois dias, ou seja, somente a crosta da lava tinha esfriado. Que bom seria poder queimá-lo só um pouquinho.

Ele apareceu cheio de si em seu jipe verde escuro, estacionou na frente da lanchonete e desceu com uma bela moça ao seu lado, acredito que a mesma da primeira vez, embora eu não possa confirmar. A princípio, foi uma surpresa amarga, mas minha cabeça não demorou a bolar uma pequena sabotagem para aquele idiota. Afinal, demitido por causa dele eu jamais seria.

Quando o troglodita mal educado veio se sentar com sua namorada a uma das mesas, eu me abaixei atrás do balcão e fingi que não os vi. Esperei que me chamassem para que eu fizesse uma aparição triunfal, porém, isso não aconteceu de imediato.

Na verdade, passaram-se tantos minutos que eu terminei arrependido dessa brincadeira. Ele e a moça conversaram um tempão sem se dar conta do meu atendimento negligente, o que ocasionou uma pequena dor em minhas costas por ficar tanto tempo agachado, além, é claro, da vergonha que senti por mim mesmo. De todo modo, o inevitável ainda aconteceu, e ele acabou por notar a falta de alguém para servi-los.

— Será que não tem ninguém aqui para me atender?! Eu mesmo terei que preparar a comida?!

Nossa! Foi um alívio ouvir sua reclamação. Desfiz minha careta de dor e surgi resplandecente para enfrentá-lo, como a assistente de um mágico saindo do baú.

— Pois não, senhor, em que posso servi-lo? – Nem me dei ao trabalho de ir à sua mesa, perguntei de onde estava mesmo.

Seu nariz enrugou e seus olhos apertaram quando percebeu quem eu era. Pelo visto, também lhe causei uma forte impressão, e que bom que foi uma surpresa desagradável.

Ele, é claro, não se intimidou com a minha presença. Levantou com toda a marra da primeira vez e caminhou até o balcão com o seu ar grotesco de homem brigão.

— O que você tá fazendo aqui, pirralho?

Se ele se atrevesse a tocar em mim no meu trabalho, eu o colocaria atrás das grades nem que fosse por algumas horas.

— Caso não tenha notado, gênio, eu trabalho aqui! Esse uniforme é até bonito, mas não é o motivo de eu usá-lo.

Sua testa franziu com a minha coragem de enfrentá-lo pela segunda vez. Deve ter achado que minha lição não foi aprendida.

— Você é sempre atrevido assim, tampinha?

— Todas as vezes... – Lhe dei um sorriso amigável. – Com quem merece, é claro.

Ele levantou o queixo com a cara enfezada, mas terminou sorrindo de mim, dando a entender que eu não representava qualquer ameaça.

— Sabia que quem fala assim comigo costuma sair com o olho inchado?

Típico! Olhei em seu rosto e me questionei o motivo de eu não ter tanto medo dele, nem mesmo das agressões. Sei lá, por mais ameaçador que fosse, era como se algo me dissesse que ele não me faria mal de verdade. O que certamente não é um pensamento sensato quando se lida com um estranho musculoso que já te agrediu uma vez.

— Então mil perdões, senhor. Eu prezo muito pelo meu rostinho perfeito. Talvez possamos encontrar outra opção. – Olhei para a rua atrás dele com uma cara de desapontamento. – Humm... É uma pena não ter chovido hoje. Vamos ter que deixar para outro dia.

Minha forma de depreciar suas ameaças e fazê-lo parecer um cara inofensivo foi muito eficaz para irritá-lo. Desafiar a suposta superioridade desses caras é uma bela maneira de tirá-los do sério, embora seja perigosa também, e eu não recomendo que façam isso em casa. Eu estava respaldado pelo momento e pelo lugar.

— Eu penso que você tá se achando demais, pirralho. É bom que comece a falar direito comigo, se não quiser enfrentar as consequências de ser tão atrevido.

Nossa, ele é realmente um gato! Pena ser um imbecil para contrapor. Me envergonhei do pensamento, mas não tive como fugir dessa verdade.

— Bom, eu me vejo, desde que você chegou, mantendo um diálogo civilizado entre nós, por mais irritante que eu possa parecer. Você, por outro lado, tem agido desde o nosso primeiro encontro como um homem das cavernas. Meu tio é advogado. Sabia que eu posso te processar por agressão?

Dessa vez foi ele quem pareceu depreciar minha ameaça. Sua feição passou de um touro valente para um cordeirinho amigável, contudo, ficou claro se tratar de puro fingimento. Por trás daqueles olhinhos que me lembraram duas jabuticabas, eu tive certeza de que ele via o meu pescoço esganado por suas mãos.

— Tudo bem, tampinha!

Abriu os braços rapidamente, o que me fez, por um segundo, considerar a silhueta dos seu corpo muitíssimo atraente. Droga! Ele tem o físico perfeito também. Nem pouco e nem muito!

— Acho que você tem razão. Eu não devia mesmo ter te jogado na lama. Aquilo foi... coisa de um Zé Mané! Eu andava bastante irritado naquele dia.

Como não acreditei nesse papinho, sequer consegui concordar com ele. Em minha mente só se passava a cena de novela mexicana em que eu era humilhado no meio da rua como uma mocinha pobre e otária.

— Para provar que estou arrependido... – Trouxe sua mão para me cumprimentar. – Você aceita as minhas desculpas?

Humm... Eu me vi numa sinuca de bico nessa hora. Primeiro porque eu queria continuar por cima, como se nada do que ele fizesse me abalasse, o que implicava agir com muita dissimulação. Segundo, se eu recusasse o seu cumprimento, apenas demonstraria raiva e ressentimento, e por mais que eu sentisse as duas coisas, preferi jogar de maneira um pouco mais descarada do que simplesmente mostrar irritação.

Sendo assim, da mesma forma que o valentão gostoso... Quer dizer, da mesma forma que o valentão idiota, eu simulei selar a paz como prova de civilidade. Uma atuação que me custou bem caro, diga-se de passagem, pois no momento em que segurei sua mão, o desgraçado impôs tanta força para me machucar que até meus dedos estralaram.

Inferno! Segurei uma careta. Eu devia ter previsto isso!

Na verdade, eu quase disse um Ai por causa da dor, mas isso seria fraquejar demais, e eu não deitaria para um inútil escorado em força bruta. O máximo que fiz foi apertar os lábios e esbugalhar os olhos para aguentar o esmagamento. Não preciso dizer que o infeliz riu sem nenhum pudor por ter, de novo, pisado em mim.

— E aí, estou desculpado agora? Vai anotar o meu pedido, tampinha?

Meus dedos adormeceram quando ele soltou minha mão. Eu engessei um sorriso para contrapor o meu olhar de morte.

— Tudo bem. O que você deseja?

— Um suco de açaí bem forte para mim, e um sanduíche natural. Aliás, dois sanduíches. Um suco de laranja e uma salada para a minha namorada.

O triunfo em sua voz foi pura provocação. Anotei o seu pedido quase furando o bloquinho com a força que botei para escrever. Olhei para ele e mais uma vez me forcei a ser educado:

— Você já pode voltar para a sua mesa agora. Daqui a pouco eu levo o seu pedido... senhor.

— Viu como é fácil? – Esfregou meus cabelos. – Continue sendo um tampinha educado e eu não bato mais em você.

Ah, eu serei bem educado sim. Você que me aguarde.

Ainda debochando, o brucutu voltou para o seu lugar e cochichou alguma coisa a meu respeito para a namorada. A bruaca imediatamente olhou para mim e sorriu, sequer teve o discernimento de disfarçar. Devia ser tão esperta quanto ele.

Pois bem, que assim fosse, eu também riria em alguns minutos, não me custava esperar. Levei o pedido deles para a cozinha e logo voltei para o balcão. Fiquei ali, observando aquele casalzinho odiável conversar e tentando não focar muito na figura de Carlos.

Senhor, que costas ele tem!

Quando a cozinha avisou sobre a finalização do pedido, eu fui satisfeito levá-lo até a mesa do feliz casal, impondo a melhor cara de simpatia que fui capaz. Carlos aproveitou para rir um pouco mais junto com a namorada enquanto eu os servia. Eu não tornei a me irritar com isso. Paciência é uma virtude, como dizem.

Retornei ao balcão e esperei o momento de dar um fim àquela festinha. Os sanduíches, sem surpresa, estavam muito bons, pois mesmo de costas, ele se virou unicamente para me olhar e fazer uma expressão safada de quem aproveitava a comida.

Como sua namorada estava de frente, eu comecei a realizar a minha singela vingança através dela. Me desfazendo de qualquer pudor, abri um sorriso descarado para a moça e fiz a mesma expressão que ele fez para mim toda vez que ela tomava um pouco do suco. Como eu esperava, a jovem se incomodou bastante com a minha atitude insinuante. Deu até para ler em seus lábios quando perguntou a ele:

— Porque aquele garoto está rindo da gente?

Carlos se virou em alerta para me encarar, agora sem o seu ar triunfante, e eu pisquei para ele ao fitar o copo de açaí em suas mãos. O idiota olhou para a bebida e imediatamente tirou a conclusão mais óbvia. Botou aquela feição furiosa e novamente veio me enfrentar sem motivo algum além de uma suposição infundada.

— O que você fez, pirralho desgraçado?!

Nossa, que agressivo!

— Nada além do meu trabalho. Posso ajudar em alguma coisa?

— Pra começo de conversa: pode parar de nos olhar desse jeito e sorrir para a minha namorada. De mulher já deu para notar que você não gosta! O que está querendo?

Coitado dele se achava que ataques desse tipo poderiam me ferir. Um clichê comum à sua espécie. Funcionou na escola por um tempo.

— Desde quando sorrir é problema? Eu preciso sorrir para os clientes. São regras de educação elementar que praticamos naturalmente.

— O quê?!

— Desculpa, pensei que você entenderia. É esperar demais, eu sei.

— Papo furado! Está rindo porque colocou alguma coisa na nossa comida! O que você fez?! Cuspiu no meu suco?

Ele pensou justamente o que presumi, tanto que me fez sorrir muito mais. Engraçado como os papéis se invertem tão rápido.

— Você não tem como provar, tem?

— Eu posso exigir a sua demissão!

— É mesmo? E sob qual pretexto? Usaria a sua fértil imaginação como motivo? Meu comportamento sempre foi impecável. Você queimaria o próprio filme ao dar um chilique. Um garotão como você não vai querer passar essa imagem, vai?

Enfurecido, sem argumentos para revidar ou provas para me incriminar, ele deu uma forte palmada sobre o balcão.

— Pirralho insuportável! – Apontou o dedo na minha cara. – Você tá brincando com fogo! Não pense que não posso te dar uma surra aqui mesmo se for preciso.

Mantendo a calma e o atrevimento, eu tirei uma flanela do meu avental e limpei o seu dedo indicador erguido para mim. Foi uma ato quase suicida, mas eu não resisti. Ele observou o gesto como se visse um grande absurdo.

— Desculpa, sua unha estava suja e isso tirou minha concentração. Deveria escovar um pouco melhor. Tenho certeza que não trabalha em mina de carvão. Agora... – Apertei os olhos. – O que você disse mesmo?

Juro que me preparei para levar um soco esmaga átomo nesse momento, e acredito que ele teve mesmo essa intenção, no entanto, terminou impedido pelo outro cliente que veio ao balcão pagar sua conta depois de muito me chamar e eu não atender. Carlos deu lugar ao homem que se aproximou e, derrotado, me apontou o dedo novamente enquanto se afastava, e dessa vez com a unha limpa:

— Isso ainda não terminou, tampinha! A gente vai se ver de novo, e você vai pular miudinho comigo.

— Volte sempre, senhor.

Fingi não me importar com a ameaça e me concentrei em pedir desculpas ao cliente ignorado. O idiota pegou sua marra e voltou pisando forte para junto da namorada. Deixou uma quantia qualquer sobre a mesa; o que me surpreendeu bastante, pois jamais imaginei que se dignaria a pagar; me deu um último olhar que pareceu até magoado, e finalmente desapareceu em seu jipe. Agora sim eu tinha ganhado... e nem precisei cuspir no suco.

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Comentários

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12/07/2020 01:37:16
Ameii
05/04/2020 01:50:21
Perfeito!
01/01/2020 15:32:08
DENTRE MAIS DE CENTO E CINQUENTA MIL CONTOS, ESTE ESTÁ ENTRE OS 110 MAIS COMENTADOS DO SITE, COM 116 VOTOS. Bem escrito, merece a nota máxima.
02/06/2019 10:38:29
Ótima historia, acompanho no Wattpad, na Amazon e aqui na CDC...
04/05/2019 23:47:47
já li essa história tres vezes muito maravilhosa
12/04/2019 23:44:54
Ainda espero por um livro completo dassa história
22/11/2018 00:20:19
Olá, amigos, aqui é o Tiago, autor dos contos. Essa é minha página no facebook, darei atualizações sobre novas histórias por lá. />
14/06/2018 10:01:00
Tão detalhado, que parece um filme, maravilhosa sua maneira de escrever :)
20/07/2017 20:07:06
Perfeito! Adoraria uma história mais longa dos dois com mais capítulos contando o dia-a-dia deles! Você escreve muito bem! Virei fã! Abraços!
26/04/2017 14:56:35
Gente, Tiago está fazendo uma espécie de Remake de MEU HOMEM VOLTOU DE VIAGEM. Vocês não sabem como está perfeito, se a história aqui na CDC está boa, no Wattpad ainda está melhor, aliás, PERFEITA. Meu sonho é que você reformularize as suas outras maravilhosas obras, principalmente O Machão Idiota Que Eu Aprendi a Amar. Modo Alice ON
08/04/2017 10:47:02
Caramba isso sim é um conto
03/04/2017 02:54:20
Gosto dos seus contos porque mostram que qualquer tipo de homem pode vir a amar outro homem. E o mais importante é o papel social que você nos traz quando mostra que os passivos e até afeminados são capazes de amar e serem amados por homens másculos, ou seja, o amor quando pinta é verdadeiro. Contos dignos de serem filmados... dariam bons roteiros para curtas e longas.
06/01/2017 15:40:27
Parabéns! Seus contos são perfeitos. Nota 20👍👏
30/10/2016 08:15:43
TOOP
20/10/2016 19:42:02
Assistisse a um filme! Desculpe o erro.
20/10/2016 19:41:11
Fantástico! Maravilhoso! Escreve de tal forma que envolve o leitor. É como se o leitor assiste a um filme. Surpreendente seus 22 anos. Lucidez e maturidade vc tem de sobra. Por favor, continue a nos presentear.
17/09/2016 02:43:40
Cara seus contos sao muito bons... volte a escrever... ta fazendo falta... abraços
22/06/2016 22:40:57
que história linda
30/04/2016 17:30:43
P
01/04/2016 07:03:07
Vc conseguiu fazer um conto de 68 capítulos em um só!! arrasou! Rsrsrs

Listas em que este conto está presente



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